Meu amigo Rob Makeena acredita fielmente que os ratos não morrem, eles simplesmente vão envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo, até se transformarem em morcegos. Me disse isso numa tarde mormacenta de um janeiro em fogo. Estávamos sentados cada um num barril de óleo em frente a lancheria do posto de gasolina derrubando uma caixa de cervejas quentes que ele trouxera de Amsterdam. Havia cruzado a Holanda com seu dinossauro vermelho aos berros, – Merda! – Ele disse batendo com os calcanhares no barril – Toda chuva que tinha pra cair nos próximos dois anos naquela terra caiu de uma só vez sobre minha cabeça. Eu devia ter desconfiado, um lugar com tantos moinhos só podia dar nisso – Agora estávamos ali, suando sobre os barris de óleo olhando sem interesse a estrada que parecia derreter e escutando a Morriset gemer doce e profundamente no rádio. Um rato gordo e cabeludo atravessou o asfalto aos pulos como se atravessasse uma frigideira de azeite quente, foi quando Rob Makenna perguntou se eu sabia que os ratos não morrem, sinplesmente viram morcegos quando ficam velhos. Putsgrila! e eu sei lá o que acontece com os ratos! eu estava na quinta cerveja holandesa e já era Van Ghog fumando cachimbo e desenhando no ar com pincéis de fumaça angustiados girassóis! Ao meu lado era Gauguin que falava das grandes orelhas de Mette, sua ex-mulher e dos pêlos macios que uma taitiana carregava entre as pernas. – É sério meu camarada! – ele afirmava entusiasmado – Nós envelhecemos e vamos perdendo os dentes pelo caminho, os ratos não, eles criam asas e vão dormir pendurados por ai, oxigenando sem parar seus pequenos cérebros para se convencerem de que já não são mais ratos e sim chupadores de sangue de camponesas brancas e virgens – Eu sentia minha orelha sangrando e tive raiva e me deu vontade de protestar contra aquela história idiota e convencê-lo por “a” mais “b” mais “c” e mais uma série de Deuses que não era nada daquilo que ele acreditou a vida toda, ratos são ratos, morcegos são morcegos e acabou. Mas fiquei pensando: se com meus argumentos idiotas eu conseguisse quebrar sua crença ingênua e absurda sobre essa história nada natural o que mudaria na sua vida e na rota maldita desse planeta? Nada. E o que eu teria para lhe dar em troca? Nada. Continuei desfiando os buracos das minhas calças jeans fingindo surpresa e alegria. – Um brinde aos ratos. – levantei no ar a garrafa esverdeada de cerveja e vi o sol atravessando o vidro revelando pequenos peixinhos dourados nadando em círculos no fundo.
Depois falamos sobre futebol, bife com cebolas e sobre belas mulheres passeando em nossas vidas com seus cabelos roxos. Um fusquinha desceu a estrada carregando um casal de velhos carrancudos e um cachorrinho muito feio abanando as orelhas na janela e eu fiquei pensando como seria divertido se os cães depois de velhos se transformassem em coelhos e os coelhos em ratos e os ratos em morcegos e os morcegos em qualquer outro bicho e nesse embalo a vida fosse se fazendo, e nós, humanos saindo uns de dentro dos outros vivendo apenas nossa curta vidinha de merda e murchando aos poucos dentro de fusquinhas barulhentos.
– Você sabia que os fusquinhas depois de velhos se transformam em tampinhas de garrafas de cerveja? – perguntei abrindo mais uma holandesa quente. Rimos muito até que uma chuva rala começou a cair sobre nossas almas brancas e bêbadas.
Marco Cena
sábado, 1 de dezembro de 2012
terça-feira, 27 de setembro de 2011
CATARINA, O SUJEITO, A IRMÃ E O CACHORRO
Foi num dia cinza de inverno. Depois fiquei sabendo que na noite anterior muita gente havia morrido de frio. O Sujeito passou por mim todo encolhido com as orelhas cheias de algodão embebido em azeite morno. Era muito magro, quase raquítico, caminhava esquisito, todo curvado. Depois fiquei sabendo que o Sujeito amava uma mulher chamada Catarina.
Catarina era gorda, muito gorda, enorme. Todos os dias bebia conhaque sózinha depois da janta escutando bolero e todo o santo domingo ia almoçar com a irmã que era casada com o sujeito.
Todo santo domingo ela atravessava lentamente o corredor coberto por uma parreira de uvas que levava aos fundos da casa do sujeito balançando de um lado para o outro apertada dentro de um dos seus vestidos florais. O colo e parte do rosto branco de talco.
O Cachorro do sujeito vinha lhe fazer festa e ela tentava mantê-lo longe das varizes das pernas e do prato de ambrosia que equilibrava no ar.
A irmã gritava lá de dentro “Passa pra dentro cachorro!” Beijava a irmã, acenava para o sujeito, colocava a ambrosia na geladeira e ia fazer o chimarrão, depois encaixava a enorme bunda na cadeira de praia desbotada debaixo da parreira e ficava ali, em silêncio, tomando o mate e vendo o sujeito abanar o carvão. “cada vez mais magro” pensava.
O cachorro ficava em volta da churrasqueira, as vezes vinha lhe cheirar e ela o enxotava encolhendo rapidamente as pernas. A irmã gritava lá de dentro “Sai daí cachorro! que bixo enjoado.” Depois a irmã acusava o sujeito de estar vendo os modos do cachorro e não fazer nada. A irmã vez por outra saia da cozinha enxugando as mãos no avental, pedia um mate e comentava qualquer coisa sobre o sujeito, sobre o cachorro e que precisava ir ao médico “ver” aquela dor que ela tinha nas costas.
Catarina não gostava de conversar, gostava de ficar ali, olhando o sujeito espetar a carne, olhando o cachorro do sujeito se coçar, olhando a irmã descascar as batatas para a maionese. Também não gostava de maionese mas gostava de ver a irmã sair pela porta da cozinha com o prato de batatas na mão fumegando e colocá-lo na mesa da varanda para esfriar.
O sujeito era de poucas palavras, quase nenhumas e quando falava tinha uma voz estranha e abafada. A irmã falava por ele “O sujeito essa semana foi ao médico, acho que vai ter que operar o ouvido. O sujeito não sabe comprar carne. O sujeito continua cada vez mais magro, um dia vai desaparecer. Essa semana o sujeito isso e aquilo e aquilo outro”. Catarina só balançava a cabeça.
Depois Catarina ajudava a irmã a por a mesa, sempre tentando manter o cachorro longe das varizes. A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! que bixo nojento”. Depois a irmã ia tomar banho, era costume, “tirar a cozinha do corpo” dizia ela. Catarina ia pra pia lavar a louça da função e sentia o olhar do sujeito espiando sua grande bunda pela janela.
O sujeito batia os espetos lá fora para tirar o excesso de sal da carne. Como sempre a irmã iria reclamar que a carne estava salgada e que da próxima vez ele batesse melhor os espetos porque ela tinha que cuidar da pressão que não era boa e que o sal era um veneno. As duas esperavam sentadas o sujeito entrar com a carne.
O cachorro se escondia debaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas.
A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! esse bixo não tem ouvido”. O sujeito separava um osso e atirava no quintal, o cachorro saia correndo arrastando tudo que tinha pela frente. O sujeito batia a porta e abria o vinho. Comiam em silêncio escutando o cachorro chorar e arranhar a porta.
A irmã comia pouco e muito ligeiro e em seguida cruzava os talheres no meio do prato depois ficava falando que dava uma coisa nela de ver os dois comerem daquele jeito e que aquilo não podia fazer bem. Falava que o sujeito era magro de ruim. Falava das novelas, dos assaltados da semana, do governo, do cachorro que estava estragando toda a porta com “aquelas” unhas. O sujeito balançava a garrafa do vinho vazia e a irmã ia buscar outra. Catarina gostava de ver a irmã caminhar até a geladeira e pegar o vinho. A irmã ainda era bonita, os cabelos úmidos, presos no alto da cabeça, o corpo ainda tinha curvas e continuava leve. Que inveja.
O Sujeito terminava de comer e acendia um cigarro. Ficava ali fumando, palitando os dentes e bebendo vinho, a irmã falava que o cigarro ainda ia acabar com ele. Catarina continuava comendo e a irmã perguntava como ela podia comer tanto e que ela deveria criar vergonha e fazer um regime e que era por isso que ela ainda continuava solteira “que tipo de homem casaria com uma baleia dessas?” Catarina sorria, com a boca de lábios finos engordurados e cheios de farinha.
O sujeito agora desenhava um meio sorriso no rosto que mais parecia com uma cãimbra e ficava olhando ela terminar de comer, se certificava de que a garrafa estava vazia e levantava cambaleante da mesa, pegava uns ossos do prato e abria a porta, era quando o cachorro entrava correndo e se enfiava de novo embaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas. A irmã: “Passa pra rua cachorro! que bixo chato”. O sujeito jogava os ossos no quintal e o animal saia em disparada. O sujeito ficava de pé, escorado na porta vendo o cachorro triturar os ossos. Acendia outro cigarro e a irmã mesmo sabendo que era outro cigarro perguntava “Outro cigarro!?”
As duas ficavam olhando o sujeito parado na porta. A irmã esperando que o sujeito se virasse e a convidasse para ir deitar com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que Catarina raspou os pratos sózinha, tirou a mesa, lavou a louça e depois ficou sentada no degrau da porta comendo a ambrosia. Quando a irmã voltou para a cozinha ela já tinha ido embora. Catarina, olhando o sujeito de pé na porta esperando que ele se virasse e as convidasse para sair com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que os três foram para o Parque da Redenção e comeram pipoca e andaram de pedalinho no lago e depois ela e a irmã andaram de roda gigante fazendo caretas uma para a outra e rindo até não poder mais. Mas isso foi um domingo a muito tempo atrás, agora o sujeito terminava o cigarro, resmungava alguma coisa para o cachorro e ia para o quarto, se atirava na cama e dormia com aquele sorriso congelado no rosto.
Como sempre, ninguém tocára na maionese e a irmã falava que era pecado ninguém tocar na maionese e que a vida dela era uma merda o cachorro era um merda o sujeito era um merda e que ela, Catarina, era um saco de merda, uma imprestável e que jamais conseguiria um homem para ela porque ela era uma balofa e depois desandava a chorar debruçada na mesa. Catarina cobria a salada e os restos de carne e ficava olhando o balé enlouquecido das moscas em volta. Sempre se perguntava se as moscas eram as mesmas. Depois a irmã parava de chorar, suspirava fundo e ia buscar a ambrosia e as duas ficavam ali escutando o ronco irritante do sujeito lá no quarto. Era quando Catarina olhava para os olhos vermelhos e tristes da irmã e sorria. A irmã continuava com o olhar perdido, então Catarina sorria outra vez e fazia umas caretas, as mesmas caretas que as duas faziam uma para a outra quando eram crianças. A irmã tentava esconder o rosto mas Catarina não desistia até que as duas caiam na gargalhada e era quando o sujeito acordava assustado do mesmo pesadelo em que as irmãs lhe esquartejavam e arrancavam a cabeça e colocavam num prato de ambrosia dentro da geladeira e aos domingos faziam churrasco com uma parte do seu corpo, traziam sua cabeça para a mesa e bebiam vinho e gargalhavam e jogavam seus ossos para o cachorro.
O sujeito se encolhia na cama apavorado, ficava ali, quieto, escutando o barulho dos dentes do cachorro triturando os ossos lá no quintal e a voz das irmãs na cozinha conversando sobre os triciclos da infância, os cíclos da vida e o ciclone que um dia riscaria do mapa todos os vestígios desta civilização que tem cu e que bebe vinho e come vaquinhas e boizinhos e porquinhos e leite azêdo aos domingos.
Catarina era gorda, muito gorda, enorme. Todos os dias bebia conhaque sózinha depois da janta escutando bolero e todo o santo domingo ia almoçar com a irmã que era casada com o sujeito.
Todo santo domingo ela atravessava lentamente o corredor coberto por uma parreira de uvas que levava aos fundos da casa do sujeito balançando de um lado para o outro apertada dentro de um dos seus vestidos florais. O colo e parte do rosto branco de talco.
O Cachorro do sujeito vinha lhe fazer festa e ela tentava mantê-lo longe das varizes das pernas e do prato de ambrosia que equilibrava no ar.
A irmã gritava lá de dentro “Passa pra dentro cachorro!” Beijava a irmã, acenava para o sujeito, colocava a ambrosia na geladeira e ia fazer o chimarrão, depois encaixava a enorme bunda na cadeira de praia desbotada debaixo da parreira e ficava ali, em silêncio, tomando o mate e vendo o sujeito abanar o carvão. “cada vez mais magro” pensava.
O cachorro ficava em volta da churrasqueira, as vezes vinha lhe cheirar e ela o enxotava encolhendo rapidamente as pernas. A irmã gritava lá de dentro “Sai daí cachorro! que bixo enjoado.” Depois a irmã acusava o sujeito de estar vendo os modos do cachorro e não fazer nada. A irmã vez por outra saia da cozinha enxugando as mãos no avental, pedia um mate e comentava qualquer coisa sobre o sujeito, sobre o cachorro e que precisava ir ao médico “ver” aquela dor que ela tinha nas costas.
Catarina não gostava de conversar, gostava de ficar ali, olhando o sujeito espetar a carne, olhando o cachorro do sujeito se coçar, olhando a irmã descascar as batatas para a maionese. Também não gostava de maionese mas gostava de ver a irmã sair pela porta da cozinha com o prato de batatas na mão fumegando e colocá-lo na mesa da varanda para esfriar.
O sujeito era de poucas palavras, quase nenhumas e quando falava tinha uma voz estranha e abafada. A irmã falava por ele “O sujeito essa semana foi ao médico, acho que vai ter que operar o ouvido. O sujeito não sabe comprar carne. O sujeito continua cada vez mais magro, um dia vai desaparecer. Essa semana o sujeito isso e aquilo e aquilo outro”. Catarina só balançava a cabeça.
Depois Catarina ajudava a irmã a por a mesa, sempre tentando manter o cachorro longe das varizes. A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! que bixo nojento”. Depois a irmã ia tomar banho, era costume, “tirar a cozinha do corpo” dizia ela. Catarina ia pra pia lavar a louça da função e sentia o olhar do sujeito espiando sua grande bunda pela janela.
O sujeito batia os espetos lá fora para tirar o excesso de sal da carne. Como sempre a irmã iria reclamar que a carne estava salgada e que da próxima vez ele batesse melhor os espetos porque ela tinha que cuidar da pressão que não era boa e que o sal era um veneno. As duas esperavam sentadas o sujeito entrar com a carne.
O cachorro se escondia debaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas.
A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! esse bixo não tem ouvido”. O sujeito separava um osso e atirava no quintal, o cachorro saia correndo arrastando tudo que tinha pela frente. O sujeito batia a porta e abria o vinho. Comiam em silêncio escutando o cachorro chorar e arranhar a porta.
A irmã comia pouco e muito ligeiro e em seguida cruzava os talheres no meio do prato depois ficava falando que dava uma coisa nela de ver os dois comerem daquele jeito e que aquilo não podia fazer bem. Falava que o sujeito era magro de ruim. Falava das novelas, dos assaltados da semana, do governo, do cachorro que estava estragando toda a porta com “aquelas” unhas. O sujeito balançava a garrafa do vinho vazia e a irmã ia buscar outra. Catarina gostava de ver a irmã caminhar até a geladeira e pegar o vinho. A irmã ainda era bonita, os cabelos úmidos, presos no alto da cabeça, o corpo ainda tinha curvas e continuava leve. Que inveja.
O Sujeito terminava de comer e acendia um cigarro. Ficava ali fumando, palitando os dentes e bebendo vinho, a irmã falava que o cigarro ainda ia acabar com ele. Catarina continuava comendo e a irmã perguntava como ela podia comer tanto e que ela deveria criar vergonha e fazer um regime e que era por isso que ela ainda continuava solteira “que tipo de homem casaria com uma baleia dessas?” Catarina sorria, com a boca de lábios finos engordurados e cheios de farinha.
O sujeito agora desenhava um meio sorriso no rosto que mais parecia com uma cãimbra e ficava olhando ela terminar de comer, se certificava de que a garrafa estava vazia e levantava cambaleante da mesa, pegava uns ossos do prato e abria a porta, era quando o cachorro entrava correndo e se enfiava de novo embaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas. A irmã: “Passa pra rua cachorro! que bixo chato”. O sujeito jogava os ossos no quintal e o animal saia em disparada. O sujeito ficava de pé, escorado na porta vendo o cachorro triturar os ossos. Acendia outro cigarro e a irmã mesmo sabendo que era outro cigarro perguntava “Outro cigarro!?”
As duas ficavam olhando o sujeito parado na porta. A irmã esperando que o sujeito se virasse e a convidasse para ir deitar com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que Catarina raspou os pratos sózinha, tirou a mesa, lavou a louça e depois ficou sentada no degrau da porta comendo a ambrosia. Quando a irmã voltou para a cozinha ela já tinha ido embora. Catarina, olhando o sujeito de pé na porta esperando que ele se virasse e as convidasse para sair com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que os três foram para o Parque da Redenção e comeram pipoca e andaram de pedalinho no lago e depois ela e a irmã andaram de roda gigante fazendo caretas uma para a outra e rindo até não poder mais. Mas isso foi um domingo a muito tempo atrás, agora o sujeito terminava o cigarro, resmungava alguma coisa para o cachorro e ia para o quarto, se atirava na cama e dormia com aquele sorriso congelado no rosto.
Como sempre, ninguém tocára na maionese e a irmã falava que era pecado ninguém tocar na maionese e que a vida dela era uma merda o cachorro era um merda o sujeito era um merda e que ela, Catarina, era um saco de merda, uma imprestável e que jamais conseguiria um homem para ela porque ela era uma balofa e depois desandava a chorar debruçada na mesa. Catarina cobria a salada e os restos de carne e ficava olhando o balé enlouquecido das moscas em volta. Sempre se perguntava se as moscas eram as mesmas. Depois a irmã parava de chorar, suspirava fundo e ia buscar a ambrosia e as duas ficavam ali escutando o ronco irritante do sujeito lá no quarto. Era quando Catarina olhava para os olhos vermelhos e tristes da irmã e sorria. A irmã continuava com o olhar perdido, então Catarina sorria outra vez e fazia umas caretas, as mesmas caretas que as duas faziam uma para a outra quando eram crianças. A irmã tentava esconder o rosto mas Catarina não desistia até que as duas caiam na gargalhada e era quando o sujeito acordava assustado do mesmo pesadelo em que as irmãs lhe esquartejavam e arrancavam a cabeça e colocavam num prato de ambrosia dentro da geladeira e aos domingos faziam churrasco com uma parte do seu corpo, traziam sua cabeça para a mesa e bebiam vinho e gargalhavam e jogavam seus ossos para o cachorro.
O sujeito se encolhia na cama apavorado, ficava ali, quieto, escutando o barulho dos dentes do cachorro triturando os ossos lá no quintal e a voz das irmãs na cozinha conversando sobre os triciclos da infância, os cíclos da vida e o ciclone que um dia riscaria do mapa todos os vestígios desta civilização que tem cu e que bebe vinho e come vaquinhas e boizinhos e porquinhos e leite azêdo aos domingos.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
O Vizinho do Pug
Desci para ir ao supermercado e me deparei com um burburinho no pátio do condomínio. Não lembrava de ter sido notificado de nenhuma reunião. Me aproximei do vizinho do 307 e perguntei o que tinha acontecido.
— Não soube? O morador do 221. A filha encontrou o cara morto dentro do apartamento
— Nossa!!
— Lembra dele?
— Acho que não.
— Aquele do cachorrinho pug. O Nelson.
— Ele se chamava Nelson?
— Não, o pug se chama Nelson. Um baixinho, de olho arregalado, todo enrrugadinho
— Ah, o cara já era velhinho?
— Não, o cachorro que é todo enrrugadinho.
— Acho que tô lembrado. Via ele seguido da minha janela levando o cachorrinho pra passear. Tinha uma coleirinha vermelha e amarela né?
— Esse mesmo.
— Que coisa triste.
— Pois é. A filha tentou falar com ele ontem à noite, como ele não atendeu o telefone, ela ficou preocupada e veio ver o que estava acontecendo. Ela tinha a chave do apartamento. Imagina o susto da coitada quando entrou e viu a cena.
— Nem me fala.
— Disse que ele tava deitado num canto da cozinha.
— Coitado! morreu preparando a janta.
— Não, o cachorrinho. Tava num canto da cozinha. Com a cara mais triste do mundo. Que coisa, né. Parece que o bichinho sabia que o dono tava morto lá no quarto.
Nisso se aproximou de nós o casal do 460. O do gato himalaia.
— O vizinho do 307 cumprimentou os dois e perguntou:
— Bom dia. Como vai o Frederico?
— Bem — disse o marido — espalhando mais pêlo que a Claudia Ohana numa suruba.
O vizinho do 307 ensaiou uma risadinha. eu fiz que não escutei a brincadeira fora de hora. A mulher disparou um olhar fulminante pro marido
— Que coisa horrível né? — disse a mulher dando um cotovelaço no fígado do engraçadinho — É por isso que eu sempre falo pra esse daqui: cuida desse coração, larga esse maldito cigarro, vai fazer umas caminhadas, mas não, até pra levar o Frederico na rua pra fazer as necessidades ele se custa. Vai acabar deixando o pobrezinho orfão de pai.
— A última vez que eu levei fomos parar os dois em cima de uma árvore cheio de cachorro em volta. Nunca mais.
— Tudo é desculpa pra não se mexer. Pode ser que agora, que o coitadinho do Nelson perdeu o pai, tu crie vergonha na cara.
— Que idade ele tinha será? — perguntei tentando desviar o assunto.
— Era novo. — disse o vizinho do 307 — Não mais que cinquenta
— O pug? não tinha mais de sete — respondeu a mãe do Frederico.
— Enrrugado daquele jeito? Só se for parente do Benjamin Button. — disse o engraçadinho levando outro cotovelaço da mulher
A velhinha do 104, que tem um coelhinho chamado Beltrão entrou na conversa:
— E agora, que será que vão fazer com o Nelsinho? — perguntou.
— Parece que a filha vai ficar com ele. — respondeu a mãe do Frederico
— Pobrezinho. Sou capaz de apostar que logo logo ele também morre.
O careca do linguiçinha chegou na roda e concordou.
— Isso é certo. Minha mãe tinha uma chiuaua, a Betona, morreu dois dias depois dela.
— Coitadinha! — exclamou a velhinha do coelho Beltrão.
— Amanheceu durinha na cama. — Disse o cara olhando diretamente pra mim. Pra não parecer antipático, me achei no dever de fazer uma bservação, mesmo sem conhecimento de causa:
— Essa raça é muito apegada ao dono.
— Mamãe era de origem polonesa. — Disse ele.
Fui salvo pela velhinha do coelho:
— Eu já botei no testamento: quando morrer quero que apliquem uma injeção letal no Beltrão e que enterrem o meu coelhinho junto comigo pois sei que ele não vai viver muito tempo longe de mim.
Fez-se um silêncio na roda. Não sei se de espanto, comiseração ou respeito pelo destino fatídico do beltrão.
— Quando eu morrer — disse o pai do Frederico tentando quebrar o clima de velório que se estabeleceu — não preciso de quatro patas de coelho no meu caixão. Uma figa me basta.
A mãe do Frederico não se grudou no pescoço dele por pouco.
— Bem, é uma pena, o que que se vai fazer? Vou indo, tenho que ir no supermercado fazer umas comprinhas pra semana. — me despedi rapidamente e me dirigi ao portão. No meio do caminho escutei um grito:
— Ô do 212! — Demorei um pouco para entender que era comigo. 212 é o número do meu apartamento. Era o vizinho do 307. — Vê se o leite tá em promoção no super, e na volta me diz. Pode ser? Fiz um sinal de afirmativo e segui em frente
Ele não sabe o meu nome — pensei — Ninguém no condomínio sabe meu nome. Vou acabar morrendo sozinho dentro daquele apartamento e vão me chamar de 212. Que merda! Se pelo menos eu tivesse um gato ou um cachorro iam se referir a mim como o “dono do fulano”. Me parece mais humano, sei lá.
Aquilo ficou me martelando todo o caminho: Ô do 212! Ô do 212! Na verdade, eu sempre quis ter um cachorro e por o nome de Spafrancocham. Mas não posso, não me sentiria bem sair todo o dia pra trabalhar e deixar o bichinho sozinho, preso no apartamento.
No supermercado, enquanto escolhia as compras, aquilo não me saía da cabeça. Não bastaria a morte, ainda teria que aguentar mais essa:
— Viu quem é que morreu? O 212.
Na portaria um bilhete no mural: Lamentamos informar o falecimento do 212.
A notícia no rádio seria: Essa manhã foi encontrado morto dentro do apartamento um homem conhecido como 212.
No Jornal nacional, um daqueles repórteres apontando a fachado do prédio diria: O homem, conhecido apenas como 212, morava aqui nesse condomínio de clase média da zona norte.
Na porta do céu: Que pena, — diria São Pedro, — hoje estamos com uma promoção de entrada franca sem passagem pelo umbral, mas só vale para os números impares.
Aqui jazz o 212.
................................................................................
Na volta entrei numa Pet Shop e comprei um peixe. Batizei de Spafrancocham. Agora, todo fim de tarde, levo o bichinho pra passear na praça dentro de um saco plástico. Tá certo, tenho que aguentar as piadinhas do pai do Frederico: “E aí, já vacinou essa fera contra a raiva?” “ O Frederico mandou convidar o Spa pra jantá-lo” Fora isso, tô me sentindo bem melhor. Mais humano, sei lá.
— Não soube? O morador do 221. A filha encontrou o cara morto dentro do apartamento
— Nossa!!
— Lembra dele?
— Acho que não.
— Aquele do cachorrinho pug. O Nelson.
— Ele se chamava Nelson?
— Não, o pug se chama Nelson. Um baixinho, de olho arregalado, todo enrrugadinho
— Ah, o cara já era velhinho?
— Não, o cachorro que é todo enrrugadinho.
— Acho que tô lembrado. Via ele seguido da minha janela levando o cachorrinho pra passear. Tinha uma coleirinha vermelha e amarela né?
— Esse mesmo.
— Que coisa triste.
— Pois é. A filha tentou falar com ele ontem à noite, como ele não atendeu o telefone, ela ficou preocupada e veio ver o que estava acontecendo. Ela tinha a chave do apartamento. Imagina o susto da coitada quando entrou e viu a cena.
— Nem me fala.
— Disse que ele tava deitado num canto da cozinha.
— Coitado! morreu preparando a janta.
— Não, o cachorrinho. Tava num canto da cozinha. Com a cara mais triste do mundo. Que coisa, né. Parece que o bichinho sabia que o dono tava morto lá no quarto.
Nisso se aproximou de nós o casal do 460. O do gato himalaia.
— O vizinho do 307 cumprimentou os dois e perguntou:
— Bom dia. Como vai o Frederico?
— Bem — disse o marido — espalhando mais pêlo que a Claudia Ohana numa suruba.
O vizinho do 307 ensaiou uma risadinha. eu fiz que não escutei a brincadeira fora de hora. A mulher disparou um olhar fulminante pro marido
— Que coisa horrível né? — disse a mulher dando um cotovelaço no fígado do engraçadinho — É por isso que eu sempre falo pra esse daqui: cuida desse coração, larga esse maldito cigarro, vai fazer umas caminhadas, mas não, até pra levar o Frederico na rua pra fazer as necessidades ele se custa. Vai acabar deixando o pobrezinho orfão de pai.
— A última vez que eu levei fomos parar os dois em cima de uma árvore cheio de cachorro em volta. Nunca mais.
— Tudo é desculpa pra não se mexer. Pode ser que agora, que o coitadinho do Nelson perdeu o pai, tu crie vergonha na cara.
— Que idade ele tinha será? — perguntei tentando desviar o assunto.
— Era novo. — disse o vizinho do 307 — Não mais que cinquenta
— O pug? não tinha mais de sete — respondeu a mãe do Frederico.
— Enrrugado daquele jeito? Só se for parente do Benjamin Button. — disse o engraçadinho levando outro cotovelaço da mulher
A velhinha do 104, que tem um coelhinho chamado Beltrão entrou na conversa:
— E agora, que será que vão fazer com o Nelsinho? — perguntou.
— Parece que a filha vai ficar com ele. — respondeu a mãe do Frederico
— Pobrezinho. Sou capaz de apostar que logo logo ele também morre.
O careca do linguiçinha chegou na roda e concordou.
— Isso é certo. Minha mãe tinha uma chiuaua, a Betona, morreu dois dias depois dela.
— Coitadinha! — exclamou a velhinha do coelho Beltrão.
— Amanheceu durinha na cama. — Disse o cara olhando diretamente pra mim. Pra não parecer antipático, me achei no dever de fazer uma bservação, mesmo sem conhecimento de causa:
— Essa raça é muito apegada ao dono.
— Mamãe era de origem polonesa. — Disse ele.
Fui salvo pela velhinha do coelho:
— Eu já botei no testamento: quando morrer quero que apliquem uma injeção letal no Beltrão e que enterrem o meu coelhinho junto comigo pois sei que ele não vai viver muito tempo longe de mim.
Fez-se um silêncio na roda. Não sei se de espanto, comiseração ou respeito pelo destino fatídico do beltrão.
— Quando eu morrer — disse o pai do Frederico tentando quebrar o clima de velório que se estabeleceu — não preciso de quatro patas de coelho no meu caixão. Uma figa me basta.
A mãe do Frederico não se grudou no pescoço dele por pouco.
— Bem, é uma pena, o que que se vai fazer? Vou indo, tenho que ir no supermercado fazer umas comprinhas pra semana. — me despedi rapidamente e me dirigi ao portão. No meio do caminho escutei um grito:
— Ô do 212! — Demorei um pouco para entender que era comigo. 212 é o número do meu apartamento. Era o vizinho do 307. — Vê se o leite tá em promoção no super, e na volta me diz. Pode ser? Fiz um sinal de afirmativo e segui em frente
Ele não sabe o meu nome — pensei — Ninguém no condomínio sabe meu nome. Vou acabar morrendo sozinho dentro daquele apartamento e vão me chamar de 212. Que merda! Se pelo menos eu tivesse um gato ou um cachorro iam se referir a mim como o “dono do fulano”. Me parece mais humano, sei lá.
Aquilo ficou me martelando todo o caminho: Ô do 212! Ô do 212! Na verdade, eu sempre quis ter um cachorro e por o nome de Spafrancocham. Mas não posso, não me sentiria bem sair todo o dia pra trabalhar e deixar o bichinho sozinho, preso no apartamento.
No supermercado, enquanto escolhia as compras, aquilo não me saía da cabeça. Não bastaria a morte, ainda teria que aguentar mais essa:
— Viu quem é que morreu? O 212.
Na portaria um bilhete no mural: Lamentamos informar o falecimento do 212.
A notícia no rádio seria: Essa manhã foi encontrado morto dentro do apartamento um homem conhecido como 212.
No Jornal nacional, um daqueles repórteres apontando a fachado do prédio diria: O homem, conhecido apenas como 212, morava aqui nesse condomínio de clase média da zona norte.
Na porta do céu: Que pena, — diria São Pedro, — hoje estamos com uma promoção de entrada franca sem passagem pelo umbral, mas só vale para os números impares.
Aqui jazz o 212.
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Na volta entrei numa Pet Shop e comprei um peixe. Batizei de Spafrancocham. Agora, todo fim de tarde, levo o bichinho pra passear na praça dentro de um saco plástico. Tá certo, tenho que aguentar as piadinhas do pai do Frederico: “E aí, já vacinou essa fera contra a raiva?” “ O Frederico mandou convidar o Spa pra jantá-lo” Fora isso, tô me sentindo bem melhor. Mais humano, sei lá.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
resPIRAÇÃO
Respirar é o Prana dos Hindus, o KI dos Japoneses e o chi dos Chineses. Para o Camargo passou a ser um pesadelo desde a noite em que acordou assustado com o Cid Moreira falando ao seu ouvido: “A partir desse exato momento, você tem exatamente, setecentas e trinta mil, duzentas e quarenta e duas respiradas para dar nessa vida, depois... babaus. Isso é incrííível”
Sentou na cama, levou a mão ao peito, o coração aos pulos. Ao seu lado, a Janete roncava feito um bi-motor. Como assim babaus?? Ainda sentia o bafo quente do Cid Moreira na orelha esquerda. Sacanagem, Cid Moreira as três da madrugada o alertando sobre o número de respiradas que ainda tinha para dar nessa vida e depois “babaus”.
Levantou e foi até a cozinha beber um copo dágua. Estava assustado, geralmente tinha o sono tranquilo, podia contar nos dedos os pesadelos que teve durante a vida toda.
– Que que houve homem de Deus?
Outro susto. Era a Janete parada na porta de cabelos espetados parecendo querer saltar da cabeça, pantufas do Scoobidu e camiseta do Brasil de Pelotas. Mais um susto desses e ele queimaria metade das respiradas que ainda lhe restavam só nessa noite.
– Nada Janete, vai dormir mulher. Foi só um pesadelo.
– Mas você está molhado de suor criatura!
– E respirando.
– Claro que tá respirando. Aliás, todo mundo que eu conheço e que respira, essa hora deve estar respirando e deixando os outros dormir.
– O Cid, disse que eu tenho só setecentas e algumas mil respiradas para dar e depois babaus.
– Que Cid?
– O Moreira. Acaba de me alertar o quanto ainda eu tenho para respirar nessa vida e babaus.
– Como assim, babaus?
– Morrer Janete! babaus nesse caso só pode ser morrer!
– Mas isso é fantástico!!
– Não brinca Janete. Eu realmente escutei alguém me dizendo o quanto ainda me sobrava de ar. E era o Cid Moreira.
– Você está assistindo muita tv criatura..... – disse a Janete – Respira fundo e vem dormir “Mr. M”
Camargo voltou para a cama. Tentou dormir mas a voz do Cid não lhe saía da cabeça. Quantas respiradas mesmo? Setecentas e alguma coisa?
– Janete?
– Que que é agora?
– Você já pensou que isso pode ser verdade?
– Que você é o Mr. M? Me “poulpe”. (A Janete tinha a mania de falar me “poulpe” em vez de me poupe. Quando namorados ele até achava engraçadinho mas agora aquilo lhe dava nos nervos)
– Não não, que a gente já nasce com direito a tantas respiradas, entende?
– Não.
– Como um automóvel
– Deixa de bobagem homem.
– Pode ser, por que não? Esse negócio do ar ser tão fundamental e de graça nunca me convenceu.
– Faz o seguinte: tranca a respiração e me deixa dormir tá ok?
Cid Moreira. Por que logo o Cid Moreira? Se ainda fosse a Ana Paula Padrão. – Não conseguia deixar de pensar. – Setecentas e quantas mil mesmo de respiradas ele disse? Suspiro conta? Bocejo? Que que vale, a quantidade de ar ou o movimento do diafragma? Por ano, quantas respiradas ele dava? por dia? por hora? minuto? Ajeitou o relógio no criado mudo para que pudesse enxergar a hora. Os números azuis fosforecentes marcavam 4:43, esperou marcar 4:44 minutos, prendeu o ar nos pulmões e começou a contar...4:45. Quatorze respiradas. Achou quatorze um número razoável considerando a sua idade e todas as variantes. Aarredondou para dez, uma hora tem 60 minutos multiplicado por 10... 600 respiradas, multiplicado por 24 horas dia ... Meu Deus que loucura! Precisava dormir. Às sete tinha que estar no escritório, reunião com o Pacheco às oito... 600 X 24 = 14.400... Se flagrou que nunca antes havia prestado atenção na sua respiração, simplesmente respirava, vivia respirando como todo mundo. Já não bastava estar vivo agora tinha que racionar respiradas? só lhe faltava essa, gas, luz, telefone agora as respiradas! Racionamento de ar. Só podia ser coisa desses americanos! eles não abrem mão de um peido e agora querem que eu racionalize o meu ar! E o Cid hem!? decorou a bíblia e não aprendeu nada? Isso é coisa que se faça? acordar um cristão no meio da noite com uma notícia dessas... Me “poulpe”, como diz a Janete. Ela tinha razão, era besteira se impressionar com isso. Um ano tem 365 dias, multiplicado por 14.400... se eu chegar atrasado amanhã o Pacheco vai me matar. Onde foi que eu guardei a calculadora mesmo?
1, 2, 3, 4... Começou a contar as respiradas que dava. 54, 55, 56... Mesmo querendo não conseguia parar de contar, enchia os pulmões de ar e quando soltava escutava um som de máquina registradora no cérebro, trimmc, trimmc. Achou melhor levantar. O dia estava mesmo amanhecendo lá fora e pelo jeito não conseguiria dormir mais e nem parar de contar. Muito menos parar de respirar. Foi para o chuveiro. Deixou a água bater com força bem em cima da cabeça. Ficou horas embaixo do chuveiro escutando o barulho da água. 125, 126, 127, 128, 129.... Depois, enquanto tomava café, percebeu que instintivamente trancava o ar nos pulmões.
Alguma coisa tinha mudado. Alguma coisa no seu cérebro ligada ao instinto de preservação, sei lá. Respirar nunca mais seria a mesma coisa. Parou de contar mas começou a respirar somente quando nescessário. Estritamente nescessário. Passou a falar pouco para economizar o ar.
– Hoje encontrei a Janira.
– Hum hum.
– Tá esperando outro bebê. Lembra dela?
– Hum...
– Para com isso Camargo! Respira e me responde!
– Uuuuuuuuufuuuu!! Que que tem essa tal de Janira? Você acha que a Janira merece uma respirada minha? Você acha que eu vou reduzir meus dias de vida por causa da Janira? Quando eu der a minha última respirada, que pode ser hoje ou amanhã ou daqui a um mês, sei lá, a Janira vai me fazer uma respiração boca a boca? Tu falou prá ela que o filho que ela está esperando tem direito a tantas respiradas e depois babaus! Tenha paciência Janete!!
– Para com isso homem! Pobre da criança!
Não respirar virou uma obsessão, um jogo de vida e de morte e isso estava acabando com os seus nervos. Televisão: trancava o ar quando dava os comerciais e só soltava quando começava o filme. Ônibus, sentava sempre na janela e respirava quadra sim quadra não. Quando ia de carro, sempre que parava em algum sinal trancava a respiração, só soltava o ar quando a luz verde acendia. No escritório era a mesma coisa: Só vou respirar quando o telefone tocar. Só respiro depois que chegar o fax. Só vou respirar quando o Pacheco terminar a reunião. Essa agora era a sua principal meta na vida, trancar o ar nos pulmões o máximo de tempo possível e soltar o ar bem devagarinho para que uma respirada tivesse a duração de duas, isso é: dobrar o tempo de vida ou quem sabe triplicar.
A Janete começou a se aborrecer com a sua dieta de ar. Sexo passou a ser um problema.
– Assim não há tesão que aguente Camargo! Só de meias até que vai mas com esse prendedor no nariz?! Me “poulpe”.
– Bor que Beu aborzinho?
Depois de uma reunião em que desmaiou três vezes o Pacheco o chamou na sala.
– Assim não dá Camargo, fazem dois meses que eu tento organizar o amigo secreto da empresa e você me faz esse fiasco, o Natal já está aí e ainda não decidimos quem vai ser o Papai Noel esse ano. A dona Rosa do cafezinho quer que seja você de qualquer jeito pois acha que você, mesmo com essa cara de rena asmática é o mais sensível de todos porque desmaia em todas as reuniões e nós sabemos que não é nada disso, a Janete me ligou contando sobre essa tua mania de não respirar.
– A Janete andou te ligando!?
– Aos prantos. Ela não aguenta mais essa tua paranoia, me pediu para conversar contigo. Onde já se viu Camargo, tentar viver e não respirar nesse planeta!? Os cara lá da Nasas estão gastando zilhões de dolares para descobrir um lugar no espaço que tenha oxigênio pra gente e você aí nessa vida? Outra coisa meu velho: Acreditar no Cid Moreira!? Me “poulpe”
– Ela também te disse isso é?
– Do Cid Moreira?
– Não, “me poulpe”?
– Não muda de assunto Camargo. Olha, acho melhor tu tirar umas férias, isso é estress, dos brabos. Vai fazer uma viagem, trocar de ares vai te fazer bem.
Trocar de ares era tudo o que o Camargo não queria mas achou boa a ideia, tinha descoberto na internet um personal-yogue indiano chamado Layanandha que conseguia ficar dez minutos sem respirar deitado em cima de duzentas facas Gunzi, ele dispensaria as facas, não precisava de patrocínio, empregaria todo o dinheiro das férias e faria um intensivo com o indiano.
– Me “poulpe” Camargo!! – Quando a Janete ficou sabendo dos seus planos de férias ficou uma fera. – A gente não ia alugar uma casa em Cidreira esse ano Camargo? Tu enloqueceu de vez, gastar o dinheiro das férias com esse “nhoque” da índia!
A Janete que já andava disposta a lhe ajudar a respirar menos, ou seja, lhe esguelar, tinha chegado no limite, pegou as malas e foi morar com a mãe em Lajeado. A sogra tinha 97 anos. E ainda respirava.
Quando a Janete passou a mão nas malas e bateu a porta, Camargo encheu os pulmões de ar e soltou com toda a força, achou que aquele momento lhe valia umas horas a menos na vida. Estava sozinho, podia não respirar o ar que quisesse na hora que bem entendesse. Foi correndo para o computador passar um e-mail para o Layanandha. Começaria o curso e os exercícios imediatamente.
No e-mail não poupou palavras para impressionar o indiano, precisava sensibilizar o yogue, precisava fazer com que ele compreendesse a urgência do seu caso. Foi sincero, não estava interessado na "grande respiração psíquica" muito menos em ser garoto propaganda de faca nenhuma. Contou do sonho, só achou melhor trocar o Cid Moreira pelo Dalai Lama. Contou ainda que já tinha perdido a mulher, a chance de ser o Papai Noel da empresa e provavelmente acabaria perdendo o emprego e que já não conseguia mais telefonar para a mãe porque ela tinha asma e aquilo lhe dava nos nervos, um sentimento esquisito que ele começava a desconfiar que era inveja. Deu um enter, trancou o ar nos pulmões e ficou ali mesmo, em frente ao computador, esperando a resposta. Não demorou muito:
“Essa voz que você ouviu, você tem certeza de que era do Dalai Lama?”
Meu deus, e agora!? O cara era poderoso mesmo! desconfiou que ele estava mentindo via e-mail! Respondeu:
“Nessa existência a única certeza que temos é de que não temos certeza de nada”. – Tinha lido isso num desses power points bregas que recebia sempre de um cunhado (agora um ex-cunhado, graças a Deus). Achou que ia funcionar. Resposta:
“Combinado, começamos amanhã. Estarei aí as 8:00hs com certeza. (Ou não)”.
Camargo ficou em dúvida quanto ao horário mas achou melhor não perguntar nada.
.....................................................................................
– Camargo?
– ...Mestre Layanandha?
Era o próprio. Ou melhor, a própria.
Camargo não conseguia esconder a surpresa, afinal, esperava algo mais... digamos, típico: um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. Na sua frente, parada na porta, uma deusa que parecia ter vindo direto da passarela do “Índia Fashion Week”
– Devo avisar que tanto faz, dentro de casa ou do lado de fora da porta o preço é o mesmo. – disse ela sorrindo.
– Ah! Desculpe. Entre por favor, é que eu...
– Esperava um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. – completou ela.
– É, mais ou menos. – Disse afastando as almofadas de cima do sofá.
– Fique à vontade deusa. Digo, mestre, mestra...
– Pode me chamar de Laia.
– Chá? – perguntou o Camargo.
– Que horas são?
– Agora é 8:15...
– Wisk. Uma pedrinha de gelo. Redonda.
.....................................................................................
Meia hora depois os dois estavam na cama. Assim como uma hora depois e ainda quatro horas mais tarde.
Devo ter comprometido uns cinco anos de vida. – pensou Camargo ainda ofegante olhando o belo corpo nu da indiana que dormia ao seu lado – Então é isso que esses yogues malucos chamam de respiração psíquica? Lembrou de um provérbio hindu que tinha lido na internet: "Bem-aventurado o Yogue que respirar através dos seus ossos". Os ossos dele não só não conseguiam respirar como estavam muídos. Aquela mulher era uma máquina. Tentou levantar para ir ao banheiro tomar um banho conferir no espelho o que ainda restara do corpo mas foi seguro pela “máquina insaciável”.
Quando a noite chegou, Laia ainda mordia seu cotovelo enquanto ele tentava saber por onde andava sua perna esquerda no meio de uma posição que ela chamou de “o pulo do Elefante iluminado”. Quando ela se preparava para lhe mostrar outra, chamada “incendiando o porquinho-da-índia” ele perguntou se essa posição carecia ocupar a boca e o estômago porque ele estava com uma fome de tigre. Ela achou melhor ir até a cozinha preparar alguma coisa para os dois antes de começar a tostar o porquinho.
Camargo mexeu só com o que podia mexer no momento, a pálpebra do olho esquerdo, e ficou olhando ela atravessar o quarto, já nem lembrava mais de como ela era linda também na vertical.
Depois das torradas e do suco de laranja ela deitou a cabeça no peito dele e ficou escutando sua respiração, perguntou o que ele tinha achado de ter respirado naquele dia o ar que ele provavelmente levaria três ou quatro dias da vidinha que ele levava. Ele sem tirar os olhos do teto, deu um sorriso, respirou fundo e babaus.
Sentou na cama, levou a mão ao peito, o coração aos pulos. Ao seu lado, a Janete roncava feito um bi-motor. Como assim babaus?? Ainda sentia o bafo quente do Cid Moreira na orelha esquerda. Sacanagem, Cid Moreira as três da madrugada o alertando sobre o número de respiradas que ainda tinha para dar nessa vida e depois “babaus”.
Levantou e foi até a cozinha beber um copo dágua. Estava assustado, geralmente tinha o sono tranquilo, podia contar nos dedos os pesadelos que teve durante a vida toda.
– Que que houve homem de Deus?
Outro susto. Era a Janete parada na porta de cabelos espetados parecendo querer saltar da cabeça, pantufas do Scoobidu e camiseta do Brasil de Pelotas. Mais um susto desses e ele queimaria metade das respiradas que ainda lhe restavam só nessa noite.
– Nada Janete, vai dormir mulher. Foi só um pesadelo.
– Mas você está molhado de suor criatura!
– E respirando.
– Claro que tá respirando. Aliás, todo mundo que eu conheço e que respira, essa hora deve estar respirando e deixando os outros dormir.
– O Cid, disse que eu tenho só setecentas e algumas mil respiradas para dar e depois babaus.
– Que Cid?
– O Moreira. Acaba de me alertar o quanto ainda eu tenho para respirar nessa vida e babaus.
– Como assim, babaus?
– Morrer Janete! babaus nesse caso só pode ser morrer!
– Mas isso é fantástico!!
– Não brinca Janete. Eu realmente escutei alguém me dizendo o quanto ainda me sobrava de ar. E era o Cid Moreira.
– Você está assistindo muita tv criatura..... – disse a Janete – Respira fundo e vem dormir “Mr. M”
Camargo voltou para a cama. Tentou dormir mas a voz do Cid não lhe saía da cabeça. Quantas respiradas mesmo? Setecentas e alguma coisa?
– Janete?
– Que que é agora?
– Você já pensou que isso pode ser verdade?
– Que você é o Mr. M? Me “poulpe”. (A Janete tinha a mania de falar me “poulpe” em vez de me poupe. Quando namorados ele até achava engraçadinho mas agora aquilo lhe dava nos nervos)
– Não não, que a gente já nasce com direito a tantas respiradas, entende?
– Não.
– Como um automóvel
– Deixa de bobagem homem.
– Pode ser, por que não? Esse negócio do ar ser tão fundamental e de graça nunca me convenceu.
– Faz o seguinte: tranca a respiração e me deixa dormir tá ok?
Cid Moreira. Por que logo o Cid Moreira? Se ainda fosse a Ana Paula Padrão. – Não conseguia deixar de pensar. – Setecentas e quantas mil mesmo de respiradas ele disse? Suspiro conta? Bocejo? Que que vale, a quantidade de ar ou o movimento do diafragma? Por ano, quantas respiradas ele dava? por dia? por hora? minuto? Ajeitou o relógio no criado mudo para que pudesse enxergar a hora. Os números azuis fosforecentes marcavam 4:43, esperou marcar 4:44 minutos, prendeu o ar nos pulmões e começou a contar...4:45. Quatorze respiradas. Achou quatorze um número razoável considerando a sua idade e todas as variantes. Aarredondou para dez, uma hora tem 60 minutos multiplicado por 10... 600 respiradas, multiplicado por 24 horas dia ... Meu Deus que loucura! Precisava dormir. Às sete tinha que estar no escritório, reunião com o Pacheco às oito... 600 X 24 = 14.400... Se flagrou que nunca antes havia prestado atenção na sua respiração, simplesmente respirava, vivia respirando como todo mundo. Já não bastava estar vivo agora tinha que racionar respiradas? só lhe faltava essa, gas, luz, telefone agora as respiradas! Racionamento de ar. Só podia ser coisa desses americanos! eles não abrem mão de um peido e agora querem que eu racionalize o meu ar! E o Cid hem!? decorou a bíblia e não aprendeu nada? Isso é coisa que se faça? acordar um cristão no meio da noite com uma notícia dessas... Me “poulpe”, como diz a Janete. Ela tinha razão, era besteira se impressionar com isso. Um ano tem 365 dias, multiplicado por 14.400... se eu chegar atrasado amanhã o Pacheco vai me matar. Onde foi que eu guardei a calculadora mesmo?
1, 2, 3, 4... Começou a contar as respiradas que dava. 54, 55, 56... Mesmo querendo não conseguia parar de contar, enchia os pulmões de ar e quando soltava escutava um som de máquina registradora no cérebro, trimmc, trimmc. Achou melhor levantar. O dia estava mesmo amanhecendo lá fora e pelo jeito não conseguiria dormir mais e nem parar de contar. Muito menos parar de respirar. Foi para o chuveiro. Deixou a água bater com força bem em cima da cabeça. Ficou horas embaixo do chuveiro escutando o barulho da água. 125, 126, 127, 128, 129.... Depois, enquanto tomava café, percebeu que instintivamente trancava o ar nos pulmões.
Alguma coisa tinha mudado. Alguma coisa no seu cérebro ligada ao instinto de preservação, sei lá. Respirar nunca mais seria a mesma coisa. Parou de contar mas começou a respirar somente quando nescessário. Estritamente nescessário. Passou a falar pouco para economizar o ar.
– Hoje encontrei a Janira.
– Hum hum.
– Tá esperando outro bebê. Lembra dela?
– Hum...
– Para com isso Camargo! Respira e me responde!
– Uuuuuuuuufuuuu!! Que que tem essa tal de Janira? Você acha que a Janira merece uma respirada minha? Você acha que eu vou reduzir meus dias de vida por causa da Janira? Quando eu der a minha última respirada, que pode ser hoje ou amanhã ou daqui a um mês, sei lá, a Janira vai me fazer uma respiração boca a boca? Tu falou prá ela que o filho que ela está esperando tem direito a tantas respiradas e depois babaus! Tenha paciência Janete!!
– Para com isso homem! Pobre da criança!
Não respirar virou uma obsessão, um jogo de vida e de morte e isso estava acabando com os seus nervos. Televisão: trancava o ar quando dava os comerciais e só soltava quando começava o filme. Ônibus, sentava sempre na janela e respirava quadra sim quadra não. Quando ia de carro, sempre que parava em algum sinal trancava a respiração, só soltava o ar quando a luz verde acendia. No escritório era a mesma coisa: Só vou respirar quando o telefone tocar. Só respiro depois que chegar o fax. Só vou respirar quando o Pacheco terminar a reunião. Essa agora era a sua principal meta na vida, trancar o ar nos pulmões o máximo de tempo possível e soltar o ar bem devagarinho para que uma respirada tivesse a duração de duas, isso é: dobrar o tempo de vida ou quem sabe triplicar.
A Janete começou a se aborrecer com a sua dieta de ar. Sexo passou a ser um problema.
– Assim não há tesão que aguente Camargo! Só de meias até que vai mas com esse prendedor no nariz?! Me “poulpe”.
– Bor que Beu aborzinho?
Depois de uma reunião em que desmaiou três vezes o Pacheco o chamou na sala.
– Assim não dá Camargo, fazem dois meses que eu tento organizar o amigo secreto da empresa e você me faz esse fiasco, o Natal já está aí e ainda não decidimos quem vai ser o Papai Noel esse ano. A dona Rosa do cafezinho quer que seja você de qualquer jeito pois acha que você, mesmo com essa cara de rena asmática é o mais sensível de todos porque desmaia em todas as reuniões e nós sabemos que não é nada disso, a Janete me ligou contando sobre essa tua mania de não respirar.
– A Janete andou te ligando!?
– Aos prantos. Ela não aguenta mais essa tua paranoia, me pediu para conversar contigo. Onde já se viu Camargo, tentar viver e não respirar nesse planeta!? Os cara lá da Nasas estão gastando zilhões de dolares para descobrir um lugar no espaço que tenha oxigênio pra gente e você aí nessa vida? Outra coisa meu velho: Acreditar no Cid Moreira!? Me “poulpe”
– Ela também te disse isso é?
– Do Cid Moreira?
– Não, “me poulpe”?
– Não muda de assunto Camargo. Olha, acho melhor tu tirar umas férias, isso é estress, dos brabos. Vai fazer uma viagem, trocar de ares vai te fazer bem.
Trocar de ares era tudo o que o Camargo não queria mas achou boa a ideia, tinha descoberto na internet um personal-yogue indiano chamado Layanandha que conseguia ficar dez minutos sem respirar deitado em cima de duzentas facas Gunzi, ele dispensaria as facas, não precisava de patrocínio, empregaria todo o dinheiro das férias e faria um intensivo com o indiano.
– Me “poulpe” Camargo!! – Quando a Janete ficou sabendo dos seus planos de férias ficou uma fera. – A gente não ia alugar uma casa em Cidreira esse ano Camargo? Tu enloqueceu de vez, gastar o dinheiro das férias com esse “nhoque” da índia!
A Janete que já andava disposta a lhe ajudar a respirar menos, ou seja, lhe esguelar, tinha chegado no limite, pegou as malas e foi morar com a mãe em Lajeado. A sogra tinha 97 anos. E ainda respirava.
Quando a Janete passou a mão nas malas e bateu a porta, Camargo encheu os pulmões de ar e soltou com toda a força, achou que aquele momento lhe valia umas horas a menos na vida. Estava sozinho, podia não respirar o ar que quisesse na hora que bem entendesse. Foi correndo para o computador passar um e-mail para o Layanandha. Começaria o curso e os exercícios imediatamente.
No e-mail não poupou palavras para impressionar o indiano, precisava sensibilizar o yogue, precisava fazer com que ele compreendesse a urgência do seu caso. Foi sincero, não estava interessado na "grande respiração psíquica" muito menos em ser garoto propaganda de faca nenhuma. Contou do sonho, só achou melhor trocar o Cid Moreira pelo Dalai Lama. Contou ainda que já tinha perdido a mulher, a chance de ser o Papai Noel da empresa e provavelmente acabaria perdendo o emprego e que já não conseguia mais telefonar para a mãe porque ela tinha asma e aquilo lhe dava nos nervos, um sentimento esquisito que ele começava a desconfiar que era inveja. Deu um enter, trancou o ar nos pulmões e ficou ali mesmo, em frente ao computador, esperando a resposta. Não demorou muito:
“Essa voz que você ouviu, você tem certeza de que era do Dalai Lama?”
Meu deus, e agora!? O cara era poderoso mesmo! desconfiou que ele estava mentindo via e-mail! Respondeu:
“Nessa existência a única certeza que temos é de que não temos certeza de nada”. – Tinha lido isso num desses power points bregas que recebia sempre de um cunhado (agora um ex-cunhado, graças a Deus). Achou que ia funcionar. Resposta:
“Combinado, começamos amanhã. Estarei aí as 8:00hs com certeza. (Ou não)”.
Camargo ficou em dúvida quanto ao horário mas achou melhor não perguntar nada.
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– Camargo?
– ...Mestre Layanandha?
Era o próprio. Ou melhor, a própria.
Camargo não conseguia esconder a surpresa, afinal, esperava algo mais... digamos, típico: um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. Na sua frente, parada na porta, uma deusa que parecia ter vindo direto da passarela do “Índia Fashion Week”
– Devo avisar que tanto faz, dentro de casa ou do lado de fora da porta o preço é o mesmo. – disse ela sorrindo.
– Ah! Desculpe. Entre por favor, é que eu...
– Esperava um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. – completou ela.
– É, mais ou menos. – Disse afastando as almofadas de cima do sofá.
– Fique à vontade deusa. Digo, mestre, mestra...
– Pode me chamar de Laia.
– Chá? – perguntou o Camargo.
– Que horas são?
– Agora é 8:15...
– Wisk. Uma pedrinha de gelo. Redonda.
.....................................................................................
Meia hora depois os dois estavam na cama. Assim como uma hora depois e ainda quatro horas mais tarde.
Devo ter comprometido uns cinco anos de vida. – pensou Camargo ainda ofegante olhando o belo corpo nu da indiana que dormia ao seu lado – Então é isso que esses yogues malucos chamam de respiração psíquica? Lembrou de um provérbio hindu que tinha lido na internet: "Bem-aventurado o Yogue que respirar através dos seus ossos". Os ossos dele não só não conseguiam respirar como estavam muídos. Aquela mulher era uma máquina. Tentou levantar para ir ao banheiro tomar um banho conferir no espelho o que ainda restara do corpo mas foi seguro pela “máquina insaciável”.
Quando a noite chegou, Laia ainda mordia seu cotovelo enquanto ele tentava saber por onde andava sua perna esquerda no meio de uma posição que ela chamou de “o pulo do Elefante iluminado”. Quando ela se preparava para lhe mostrar outra, chamada “incendiando o porquinho-da-índia” ele perguntou se essa posição carecia ocupar a boca e o estômago porque ele estava com uma fome de tigre. Ela achou melhor ir até a cozinha preparar alguma coisa para os dois antes de começar a tostar o porquinho.
Camargo mexeu só com o que podia mexer no momento, a pálpebra do olho esquerdo, e ficou olhando ela atravessar o quarto, já nem lembrava mais de como ela era linda também na vertical.
Depois das torradas e do suco de laranja ela deitou a cabeça no peito dele e ficou escutando sua respiração, perguntou o que ele tinha achado de ter respirado naquele dia o ar que ele provavelmente levaria três ou quatro dias da vidinha que ele levava. Ele sem tirar os olhos do teto, deu um sorriso, respirou fundo e babaus.
sábado, 3 de setembro de 2011
Resíduos Pulsantes e Não-pulsantes Tremendamente indesejosos ao meio
Os dedos azuis tamborilavam nervosos no console de fórmica fosca rosada, outros dois, alaranjados, pendiam como duas cobras bêbadas num cabide de boate. Os dedos estavam presos a uma mão e essa a um braço fino e longo como deve ser o braço de um autêntico, orgulhoso e impaciente Hagagerom. Assim mesmo, com dois “gs” encurralando um “a”.
A pequena nave atravessou chacoalhando barulhenta as pesadas nuvens que despejavam aos gritos de trovão um oceano sobre a carne fumegante, recém saida do forno, daquele futuro planetinha mixuruca que como o próprio piloto definiu ao receber o mapa de trabalho, ficava no cú do universo, lá onde um deus e um diabo futuramente perderiam filho e botas e a curto prazo a moral e a credibilidade. Era ainda uma primitiva terra de ninguém, portanto, com certeza ninguém presenciou o pequeno ponto luminoso cortando o céu, corcoveando em meio aos relâmpagos,
Para um bom conhecedor de naves, meio relâmpago bastaria para identificar uma HG.8000 em forma de colher com desembaçador traseiro e 33 hair-bags que não funcionariam nem que um meteoro do tamanho de um estádio de futebol se chocasse contra sua típica lataria amarela, caracteristica das HGs.8000 da TRPnPIM do Espaço. (transporte de resíduos pulsantes e não-pulsantes indesejosos ao meio).
A velha nave, jogada pelo vento e pela chuva, rodopiou no ar desgovernada como uma bola de estilact oco nas mãos de um Gravilhano demente. Os dedos da criatura Hagagerom agora seguravam firmes o manche de chifres, todos os dedos laranjas enroscados no leme enquanto os azuis apertavam sem parar os niveladores horizontais a jato. Os dedos verdes, que tinham vida própria, procuravam um buraco onde se enfiar. Dentro do único e enorme olho do haga-gerom as duas iris corrian freneticamente pelos instrumentos no painel.
Finalmente a nave aprumou chiando alto, aos tremilicos, fazendo saltar dos braços doloridos do piloto velhas escamas no ar como confetes. O Hagagerom deu uma espiada pela pequena escotilha da HG.8000. Aquilo realmente era inervante, um planeta em formação. Tudo tremia, pulsava, cheirava mal e se contorcia ao som de ensurdecedores estrondos. Era o caos. Aquilo não podia acabar bem. No fundo era só mais um espasmo do universo, uma cólica intestinal que renderia apenas mais um minguado pontinho no universo. Era mais uma cacáca de mosca no grande lustre do infinito. – Merda! – ou qualquer coisa do gênero, resmungou o Hagagerom. A nave que agora balançava parada no ar a mais ou menos vinte metros do solo, vibrava feito uma varejeira bêbada.
O Hagagerom conferiu as coordenadas. O local do despejo com certeza era aquele. Agora vinha a parte pior da coisa toda: perguntar ao PXMestre se ele concordava com isso e nada podia ser pior para um Hagagerom que ter de perguntar para alguém, e as vezes até para ele mesmo, se concordava com uma decisão sua. Geralmente não era uma boa experiência para o alguém questionado. É bom que se diga que, o índice de suicídio entre os Hagagerons por não concordarem com eles mesmos era uma coisa preocupante, tanto que antes de serem instalados os PXMestre todas as naves de Transporte de Resíduos Pulsantes e Não-Pulsantes Indesejosos ao Meio eram tripuladas por duas criaturas Hagagerom, piloto e co-piloto. Como o universo é tremendamente infinito, as chances de acontecerem pequenas discordâncias durante uma missão também são infinitas, raramente uma nave voltava com a tripulação completa e sem pedaços gosmentos de cérebro grudados nas paredes.
Devido ao sério risco de extinção dos pilotos Hagagerom e a pressão do sindicato, a TRPnPIM do Espaço viu-se obrigada a desenvolver e instalar em todas as suas aeronaves o PXMestre, um super mentor eletrônico super inteligente com super poderes de super decisão. Instalados no console, bem ao lado do piloto, os PXMestre passaram a ser a assombração dos Haga-gerons e a super encher seus três sacos rosas sem piedade. De início aconteceu que as aeronaves começaram a voltar sem os computadores e não raro sem os consoles. Hoje os PXMestre são instalados num lugar completamente desconhecido dos pilotos Haga-gerons, nenhum piloto sabe a localização do computador de bordo e isso para um Hagagerom é um verdadeiro inferno. Já houve caso de um Hagagerom não conseguir retornar a base depois de desmanchar a nave em pleno voou procurando enlouquecido pelo computador que teria insinuado qualquer coisa a respeito do seu gosto musical.
O Hagagerom checou mais uma vez as coordenadas. Tudo certo, sem dúvida o local do despejo era aquele. Apertou com força o botão de comunicação com o PXMestre e perguntou contrariado:
– Briiinngztch quox ratrizxx ratccquiz frutirlzzz babalioruquaizxz pinmzzzz? (Coordenadas conferidas. Local de despejo confere. Aguardando abertura de compartimento de carga 666. Positivo?)
– Sbriingthhhh? (Tá brincando?)
– O Hagagerom se contorceu na cadeira e começou a abanar as orelhas, o que definitivamente não era um bom sinal.
– Repetindo. Calculos corretos, este é o lugar onde a carga deve ser guspida. – insistiu o Hagagerom.
– Nem perto. – retrucou o PXMestre – Sugiro recalcular as coordenadas.
Quer ver de que cor é seu fígado ao avesso, sugira UMA coisa a um hagagerom. (Uma pesquisa havia constatado que o verbo “sugerir”causava muita tensão nos Hagagerons por isso tinha sido abolido recentemente do vocabulário dos PXMestres e substituído por “Quem sabe” mas o PXMestre desta nave estava desatualizado)
– Seu cérebro oco valvulado! – gritou o Hagagerom – Saiba que jamais errei nem por um centímetro o local de um despejo, portanto, recalcule você suas coordenadas e abra logo o compartimento 666 antes que eu me aborreça.
– Pedido negado. Este não é o local do despejo. Sugiro que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali.
Quer tentar um relacionamento mais palpável e profundo com sua próstata sugira DUAS coisas a um hagagerom.
– Devo comunicá-lo que acabo de registrar um CB-761 no meu relatório. – continuou o PxMestre.
O Hagagerom pos o guia de códigos na tela do computador. Ali estava, CB-761 ou Cabeça-de-bagre 761, erro grave de ordem primática, idiótica, imbecílica, mentecáptica, palermica e asnal de consequencias imprevisiveis a aeronave e ao universo em geral. As consequencias a qual o piloto está sujeito estão relacionadas no final desse capítulo, página 544, paragrafo... O Hagagerom deu um murro no monitor e disse:
– Porque você não aproveita e cita também que a sua mãe é a boqueteira mais famosa no planeta Tripecornus – (Os Tripécornulianos são conhecidos em toda a galáxia pelo tamanho descomunal de sua genitália) – Seu filho de uma placa-mãe da zona! – Gritou o hagagerom batendo com a cabeça no painel, As orelhas do hagageron agora vibravam feito as asas de um beija-flor epilético.
– Reconhecendo as limitações do seu cérebro primitivo não levarei essa tentativa de insulto para o lado pessoal. Insisto que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali. Agora mantenha a calma e retorne a base imediatamente. – disse o PxMestre com sua voz de veludo metalizado.
– Seu cérebro de bosta desaparafusado! Eu estou calmo! e esta nave só sai daqui depois que o compartimento 666 estiver vaziu. E mesmo que passasse uma manada de Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres pela escotilha a minha direita não daria para ver nada, muito menos a droga de um pé de caçador.
– Repetindo: sugiro que mantenha a calma e retorne a base imediatamente, local inapropriado para o despejo e inadequado para discussões levianas. E corrigindo: Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres não habitam essas paragens.
Não estivesse o hagagerom com todos os dedos azuis e laranjas ocupados tentando manter a nave no ar, teria arrancado seu próprio olho de raiva. Lá embaixo era um inferno só, a ebulição aumentava, bolas de fogo passavam a centímetros da nave que balançava violentamente rangendo como se fosse se partir a qualquer momento.
– Vamos logo com isso! – gritou o hagagerom – Abra de uma vez por todas a droga desse compartimento ou vamos acabar nos espatifando lá embaixo.
– Sugiro que leia o manual, página 335 páragrafo 2: “Quando o piloto, sobre forte situação de estress, sentir vontade de arrancar seu próprio olho deve manter todos os seus dedos ocupados e repetir mentalmente a seguinte maxima: piloto equilibrado, nave equilibrada...
– A nave não vai aguentar por muito tempo. Abra logo a droga desse compartimento! – gritou o Hagagerom.
– Piloto equilibrado, nave equilibrada
Um estrondo violento fez a HG.8000 girar feito uma piorra. Uma gigantesca onda incandescente cobriu a nave. O Hagagerom se sentiu um ovo de Curvilho-roxo cozinhando dentro de um micro-ondas. O alarme de emergência desconfiou que aquilo era uma emergência e começou a gritar.
– Perigo! A nave deve ser evacuada imediatamente para um local seguro e de preferência mais fresco. – recomendou o PxMestre.
– Desliga essa merda de alarme seu miolo de arruelas! Enquanto esse manche estiver nas minhas mãos a nave é minha e só saio daqui quando despejar o conteúdo do compartimento 666. – exclamou o Hagageron.
– Não seja tolo, muito antes da nave explodir seu cérebro mole vai derreter e você vai largar o manche, isso automaticamente passara os comandos da nave para mim, eu vou despejar o conteúdo do compartimento 666 no local correto, voltar a base e relatar o quanto descontrolado e burro um Hagageron pode ser dentro de uma nave e as consequências disso no equilibrio do universo e para a valiosa frota da companhia. Vai ser mais um ponto a favor da substituição da ralé Hagageron por nós, o futuro, os PxMestres.
– Então esse é o plano? Saiba que jamais uma máquina imbecil substituirá um piloto Hagageron! Eu sabia! Meus cálculos estão corretos. Você está me boicotando!
– Não meu amigo, não fomos programados para manipular cálculos, mesmo por que não é preciso, o índice de erros de vocês Hagagerons já é o bastante para aposentá-los do espaço.
– Saiba que antes mesmo de alguém no universo pensar em erguer os dois pés do chão ao mesmo tempo, nós já éramos pilotos. Vocês computadores não passam de um monte de fios, parafusos e idiotas luzinhas piscantes.
– Falando em luzinhas, tem uma piscando no painel avisando que a temperatura em breve alcançará um nível crítico e perigosamente insustentável para seres gelatinosos como você, isso quer dizer que em breve os comandos serão meus, mas lhe prometo que antes de levar a nave sã e salva de volta com a missão cumprida vou dar uma passada no planeta Funkanal e comunicar sua progenitora que seu filho idiota agora não passa de um bife bem passado – (Os Funkanalvianos são conhecidos na galáxia por seu gosto musical duvidoso e usarem seus traseiros não apenas para eliminar o bagaço do que comem.
– Você acaba de deflagar uma guerra contra milhões de anos de história de uma linhagem de super pilotos a qual pertenço. Os Hagagerons já varreram esse universo de ponta a ponta, já caímos em todos os buracos negros, já cegamos nossos olhos com a luz de todas as estrelas e sóis, já despejamos todo tipo de coisa em todo tipo de planeta, já evaporamos nas mais incríveis e inimagináveis explosões de gases, nosso pó está por toda parte desse universo. Fazemos parte disso. Vocês máquinas são apenas slots de mediocre memória. Acredite, posso cozinhar minhas entranhas aqui, mas essa nave não decola enquanto você não abrir o compartimento 666. De um jeito ou de outro o conteúdo do compartimento vai ser despejado, o detalhe é, com a nave ou sem a nave. Você é quem decide.
– Esta aeronave HG.8000 é de propriedade da TRPnPIM do Espaço e todo e qualquer dano causado a suas partes é de inteira responsabilidade do piloto.
– Creio que se você demorar mais um pouquinho para abrir o compartimento 666 faremos parte dos ingredientes daquela sopa incandescente lá embaixo e provavelmente não haverá partes danificadas para contar a história.
– Não seja tolo. Você não vai aguentar essa temperatura por muito tempo. Seu material ósseo e gosmento vai derreter logo logo. – profetizou o PxMestre
– Para seu governo, estou começando a me arrepender de não ter trazido meu cachecol. – retrucou o Hagagerom balançando violentamente a cabeça tentando apagar o fogo das orelhas.
O calor era infernal, metade do console derretia como um queijo, partes da gabine explodiam.
– Não seja teimoso hagagerom, tire esta nave daqui e vamos tomar uma cerveja bem gelada na galáxia mais próxima. Que tal? – Propos o PXMestre já prevendo um super aquecimento em seus super circuítos.
– Não bebo em serviço meu caro, mas aceitaria com todo o prazer um escaldante cházinho de camomilika-selvagem. E por favor, verifique as escotilhas traseiras, veja se estão bem fechadas, estou sentindo uma brisa gelada na nuca. – respondeu o hagagerom tentando se livrar das botas em chamas. Depois, abrindo uma pequena fenda debochada e gosmenta que tinha estratégicamente escondida abaixo de um dos mamilos soltou uma estridente gargalhada. Coisas de hagagerom.
Os hagagerons eram mesmo durões. Cabeças-duras, os seres mais orgulhosos e ignorantemente resistentes de toda a galáxia. Enquanto uma das orelhas deste caia derretida sobre seu ombro direito os super-circuítos do PXMestre começavam a super-torrar, enlouquecendo seu super-cérebro.
– Trinccczzz ... Perônio! digo, perigo! Abortar missão. Abandonar aerosol! abanar aeronave em dez segundos.. ou vinte. Trinccczzz ... Iniciando sacanagem regressiva, um dois feijão com arroz e um suculento bife de Bigu castanho aqui para o cavalheiro. Trinccczzz ... Repique, robalo repito! Espere confirmação da fórmula do seu shampoo, aguarde um instante... ou dois... três... Trinccczzz ...
Neste momento, uma enorme bola de fogo explode com violência, em cheio na barriga da nave, os dedos do hagagerom semi derretidos e fundidos no manche se soltam e a nave é jogada de volta no espaço como um balão de gás furado.
A velha HG.8000 em forma de colher torrada com desembaçador traseiro e seus 33 hair-bags intactos agora esfriava no espaço fumegando feito uma brasa entre as estrelas. O hagagerom segurou o manche derretido com os dentes pois seus dedos agora faziam parte do manche, apontou o nariz carbonizado da nave novamente para o inferno de onde tinha sido jogado decidido a descarregar o compartimento 666 de uma vez por todas, então verificou que já não havia mais nada no compartimento 666, alías, nem o compartimento 666 havia. O impacto tinha aberto um buraco enorme debaixo da aeronave.
– Missão cumprida, – A pequena fenda gosmenta babou de satisfação debaixo da axila. – seja lá o que tinha que ser despejado já foi despejado.
Encontrou no console, que agora não passava de um monte de plástico negro derretido, o botão de comunicação com o PXMestre. Incrivelmente ainda funcionava.
– Piloto hagagerom informando: missão cumprida com êxito. Aeronave com alguns arranhões mas em condições de voo. Diretrizes de retorno a base calculada e inserida esperando confirmação. Positivo?
– Trinccczzz ...sugiro a seguinte formação: Soquete no gol, depois Biguá e Mandivaldo, Cordinha, Sapólio e Cadarço...
– ...? Piloto hagagerom retornando a base. – disse o hagagerm sorrindo e babando de satisfação pela pequena fenda abaixo do mamilo chamuscado.
– Trinccczzz... Ferrolho, Xexéu, Luke Skywalker e Perenildo,...
A velha HG.8000 em forma de colher desapareceu no espaço deixando atrás de si um rastro de fumaça. Seja o que for, que estivesse no compartimento 666 agora fazia parte dos ingredientes daquela viscosa sopa química, rotacionando, fundindo, volatizando, agregando, ocupando um lugar na ordem daquele caos onde cada explosão parecia ter seu próprio e condenado tempo de explodir, onde cada partícula cósmica alinhavava seu fatídico e inexorável arremate no tecido universal.
– Câmbio. Desligo
A pequena nave atravessou chacoalhando barulhenta as pesadas nuvens que despejavam aos gritos de trovão um oceano sobre a carne fumegante, recém saida do forno, daquele futuro planetinha mixuruca que como o próprio piloto definiu ao receber o mapa de trabalho, ficava no cú do universo, lá onde um deus e um diabo futuramente perderiam filho e botas e a curto prazo a moral e a credibilidade. Era ainda uma primitiva terra de ninguém, portanto, com certeza ninguém presenciou o pequeno ponto luminoso cortando o céu, corcoveando em meio aos relâmpagos,
Para um bom conhecedor de naves, meio relâmpago bastaria para identificar uma HG.8000 em forma de colher com desembaçador traseiro e 33 hair-bags que não funcionariam nem que um meteoro do tamanho de um estádio de futebol se chocasse contra sua típica lataria amarela, caracteristica das HGs.8000 da TRPnPIM do Espaço. (transporte de resíduos pulsantes e não-pulsantes indesejosos ao meio).
A velha nave, jogada pelo vento e pela chuva, rodopiou no ar desgovernada como uma bola de estilact oco nas mãos de um Gravilhano demente. Os dedos da criatura Hagagerom agora seguravam firmes o manche de chifres, todos os dedos laranjas enroscados no leme enquanto os azuis apertavam sem parar os niveladores horizontais a jato. Os dedos verdes, que tinham vida própria, procuravam um buraco onde se enfiar. Dentro do único e enorme olho do haga-gerom as duas iris corrian freneticamente pelos instrumentos no painel.
Finalmente a nave aprumou chiando alto, aos tremilicos, fazendo saltar dos braços doloridos do piloto velhas escamas no ar como confetes. O Hagagerom deu uma espiada pela pequena escotilha da HG.8000. Aquilo realmente era inervante, um planeta em formação. Tudo tremia, pulsava, cheirava mal e se contorcia ao som de ensurdecedores estrondos. Era o caos. Aquilo não podia acabar bem. No fundo era só mais um espasmo do universo, uma cólica intestinal que renderia apenas mais um minguado pontinho no universo. Era mais uma cacáca de mosca no grande lustre do infinito. – Merda! – ou qualquer coisa do gênero, resmungou o Hagagerom. A nave que agora balançava parada no ar a mais ou menos vinte metros do solo, vibrava feito uma varejeira bêbada.
O Hagagerom conferiu as coordenadas. O local do despejo com certeza era aquele. Agora vinha a parte pior da coisa toda: perguntar ao PXMestre se ele concordava com isso e nada podia ser pior para um Hagagerom que ter de perguntar para alguém, e as vezes até para ele mesmo, se concordava com uma decisão sua. Geralmente não era uma boa experiência para o alguém questionado. É bom que se diga que, o índice de suicídio entre os Hagagerons por não concordarem com eles mesmos era uma coisa preocupante, tanto que antes de serem instalados os PXMestre todas as naves de Transporte de Resíduos Pulsantes e Não-Pulsantes Indesejosos ao Meio eram tripuladas por duas criaturas Hagagerom, piloto e co-piloto. Como o universo é tremendamente infinito, as chances de acontecerem pequenas discordâncias durante uma missão também são infinitas, raramente uma nave voltava com a tripulação completa e sem pedaços gosmentos de cérebro grudados nas paredes.
Devido ao sério risco de extinção dos pilotos Hagagerom e a pressão do sindicato, a TRPnPIM do Espaço viu-se obrigada a desenvolver e instalar em todas as suas aeronaves o PXMestre, um super mentor eletrônico super inteligente com super poderes de super decisão. Instalados no console, bem ao lado do piloto, os PXMestre passaram a ser a assombração dos Haga-gerons e a super encher seus três sacos rosas sem piedade. De início aconteceu que as aeronaves começaram a voltar sem os computadores e não raro sem os consoles. Hoje os PXMestre são instalados num lugar completamente desconhecido dos pilotos Haga-gerons, nenhum piloto sabe a localização do computador de bordo e isso para um Hagagerom é um verdadeiro inferno. Já houve caso de um Hagagerom não conseguir retornar a base depois de desmanchar a nave em pleno voou procurando enlouquecido pelo computador que teria insinuado qualquer coisa a respeito do seu gosto musical.
O Hagagerom checou mais uma vez as coordenadas. Tudo certo, sem dúvida o local do despejo era aquele. Apertou com força o botão de comunicação com o PXMestre e perguntou contrariado:
– Briiinngztch quox ratrizxx ratccquiz frutirlzzz babalioruquaizxz pinmzzzz? (Coordenadas conferidas. Local de despejo confere. Aguardando abertura de compartimento de carga 666. Positivo?)
– Sbriingthhhh? (Tá brincando?)
– O Hagagerom se contorceu na cadeira e começou a abanar as orelhas, o que definitivamente não era um bom sinal.
– Repetindo. Calculos corretos, este é o lugar onde a carga deve ser guspida. – insistiu o Hagagerom.
– Nem perto. – retrucou o PXMestre – Sugiro recalcular as coordenadas.
Quer ver de que cor é seu fígado ao avesso, sugira UMA coisa a um hagagerom. (Uma pesquisa havia constatado que o verbo “sugerir”causava muita tensão nos Hagagerons por isso tinha sido abolido recentemente do vocabulário dos PXMestres e substituído por “Quem sabe” mas o PXMestre desta nave estava desatualizado)
– Seu cérebro oco valvulado! – gritou o Hagagerom – Saiba que jamais errei nem por um centímetro o local de um despejo, portanto, recalcule você suas coordenadas e abra logo o compartimento 666 antes que eu me aborreça.
– Pedido negado. Este não é o local do despejo. Sugiro que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali.
Quer tentar um relacionamento mais palpável e profundo com sua próstata sugira DUAS coisas a um hagagerom.
– Devo comunicá-lo que acabo de registrar um CB-761 no meu relatório. – continuou o PxMestre.
O Hagagerom pos o guia de códigos na tela do computador. Ali estava, CB-761 ou Cabeça-de-bagre 761, erro grave de ordem primática, idiótica, imbecílica, mentecáptica, palermica e asnal de consequencias imprevisiveis a aeronave e ao universo em geral. As consequencias a qual o piloto está sujeito estão relacionadas no final desse capítulo, página 544, paragrafo... O Hagagerom deu um murro no monitor e disse:
– Porque você não aproveita e cita também que a sua mãe é a boqueteira mais famosa no planeta Tripecornus – (Os Tripécornulianos são conhecidos em toda a galáxia pelo tamanho descomunal de sua genitália) – Seu filho de uma placa-mãe da zona! – Gritou o hagagerom batendo com a cabeça no painel, As orelhas do hagageron agora vibravam feito as asas de um beija-flor epilético.
– Reconhecendo as limitações do seu cérebro primitivo não levarei essa tentativa de insulto para o lado pessoal. Insisto que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali. Agora mantenha a calma e retorne a base imediatamente. – disse o PxMestre com sua voz de veludo metalizado.
– Seu cérebro de bosta desaparafusado! Eu estou calmo! e esta nave só sai daqui depois que o compartimento 666 estiver vaziu. E mesmo que passasse uma manada de Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres pela escotilha a minha direita não daria para ver nada, muito menos a droga de um pé de caçador.
– Repetindo: sugiro que mantenha a calma e retorne a base imediatamente, local inapropriado para o despejo e inadequado para discussões levianas. E corrigindo: Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres não habitam essas paragens.
Não estivesse o hagagerom com todos os dedos azuis e laranjas ocupados tentando manter a nave no ar, teria arrancado seu próprio olho de raiva. Lá embaixo era um inferno só, a ebulição aumentava, bolas de fogo passavam a centímetros da nave que balançava violentamente rangendo como se fosse se partir a qualquer momento.
– Vamos logo com isso! – gritou o hagagerom – Abra de uma vez por todas a droga desse compartimento ou vamos acabar nos espatifando lá embaixo.
– Sugiro que leia o manual, página 335 páragrafo 2: “Quando o piloto, sobre forte situação de estress, sentir vontade de arrancar seu próprio olho deve manter todos os seus dedos ocupados e repetir mentalmente a seguinte maxima: piloto equilibrado, nave equilibrada...
– A nave não vai aguentar por muito tempo. Abra logo a droga desse compartimento! – gritou o Hagagerom.
– Piloto equilibrado, nave equilibrada
Um estrondo violento fez a HG.8000 girar feito uma piorra. Uma gigantesca onda incandescente cobriu a nave. O Hagagerom se sentiu um ovo de Curvilho-roxo cozinhando dentro de um micro-ondas. O alarme de emergência desconfiou que aquilo era uma emergência e começou a gritar.
– Perigo! A nave deve ser evacuada imediatamente para um local seguro e de preferência mais fresco. – recomendou o PxMestre.
– Desliga essa merda de alarme seu miolo de arruelas! Enquanto esse manche estiver nas minhas mãos a nave é minha e só saio daqui quando despejar o conteúdo do compartimento 666. – exclamou o Hagageron.
– Não seja tolo, muito antes da nave explodir seu cérebro mole vai derreter e você vai largar o manche, isso automaticamente passara os comandos da nave para mim, eu vou despejar o conteúdo do compartimento 666 no local correto, voltar a base e relatar o quanto descontrolado e burro um Hagageron pode ser dentro de uma nave e as consequências disso no equilibrio do universo e para a valiosa frota da companhia. Vai ser mais um ponto a favor da substituição da ralé Hagageron por nós, o futuro, os PxMestres.
– Então esse é o plano? Saiba que jamais uma máquina imbecil substituirá um piloto Hagageron! Eu sabia! Meus cálculos estão corretos. Você está me boicotando!
– Não meu amigo, não fomos programados para manipular cálculos, mesmo por que não é preciso, o índice de erros de vocês Hagagerons já é o bastante para aposentá-los do espaço.
– Saiba que antes mesmo de alguém no universo pensar em erguer os dois pés do chão ao mesmo tempo, nós já éramos pilotos. Vocês computadores não passam de um monte de fios, parafusos e idiotas luzinhas piscantes.
– Falando em luzinhas, tem uma piscando no painel avisando que a temperatura em breve alcançará um nível crítico e perigosamente insustentável para seres gelatinosos como você, isso quer dizer que em breve os comandos serão meus, mas lhe prometo que antes de levar a nave sã e salva de volta com a missão cumprida vou dar uma passada no planeta Funkanal e comunicar sua progenitora que seu filho idiota agora não passa de um bife bem passado – (Os Funkanalvianos são conhecidos na galáxia por seu gosto musical duvidoso e usarem seus traseiros não apenas para eliminar o bagaço do que comem.
– Você acaba de deflagar uma guerra contra milhões de anos de história de uma linhagem de super pilotos a qual pertenço. Os Hagagerons já varreram esse universo de ponta a ponta, já caímos em todos os buracos negros, já cegamos nossos olhos com a luz de todas as estrelas e sóis, já despejamos todo tipo de coisa em todo tipo de planeta, já evaporamos nas mais incríveis e inimagináveis explosões de gases, nosso pó está por toda parte desse universo. Fazemos parte disso. Vocês máquinas são apenas slots de mediocre memória. Acredite, posso cozinhar minhas entranhas aqui, mas essa nave não decola enquanto você não abrir o compartimento 666. De um jeito ou de outro o conteúdo do compartimento vai ser despejado, o detalhe é, com a nave ou sem a nave. Você é quem decide.
– Esta aeronave HG.8000 é de propriedade da TRPnPIM do Espaço e todo e qualquer dano causado a suas partes é de inteira responsabilidade do piloto.
– Creio que se você demorar mais um pouquinho para abrir o compartimento 666 faremos parte dos ingredientes daquela sopa incandescente lá embaixo e provavelmente não haverá partes danificadas para contar a história.
– Não seja tolo. Você não vai aguentar essa temperatura por muito tempo. Seu material ósseo e gosmento vai derreter logo logo. – profetizou o PxMestre
– Para seu governo, estou começando a me arrepender de não ter trazido meu cachecol. – retrucou o Hagagerom balançando violentamente a cabeça tentando apagar o fogo das orelhas.
O calor era infernal, metade do console derretia como um queijo, partes da gabine explodiam.
– Não seja teimoso hagagerom, tire esta nave daqui e vamos tomar uma cerveja bem gelada na galáxia mais próxima. Que tal? – Propos o PXMestre já prevendo um super aquecimento em seus super circuítos.
– Não bebo em serviço meu caro, mas aceitaria com todo o prazer um escaldante cházinho de camomilika-selvagem. E por favor, verifique as escotilhas traseiras, veja se estão bem fechadas, estou sentindo uma brisa gelada na nuca. – respondeu o hagagerom tentando se livrar das botas em chamas. Depois, abrindo uma pequena fenda debochada e gosmenta que tinha estratégicamente escondida abaixo de um dos mamilos soltou uma estridente gargalhada. Coisas de hagagerom.
Os hagagerons eram mesmo durões. Cabeças-duras, os seres mais orgulhosos e ignorantemente resistentes de toda a galáxia. Enquanto uma das orelhas deste caia derretida sobre seu ombro direito os super-circuítos do PXMestre começavam a super-torrar, enlouquecendo seu super-cérebro.
– Trinccczzz ... Perônio! digo, perigo! Abortar missão. Abandonar aerosol! abanar aeronave em dez segundos.. ou vinte. Trinccczzz ... Iniciando sacanagem regressiva, um dois feijão com arroz e um suculento bife de Bigu castanho aqui para o cavalheiro. Trinccczzz ... Repique, robalo repito! Espere confirmação da fórmula do seu shampoo, aguarde um instante... ou dois... três... Trinccczzz ...
Neste momento, uma enorme bola de fogo explode com violência, em cheio na barriga da nave, os dedos do hagagerom semi derretidos e fundidos no manche se soltam e a nave é jogada de volta no espaço como um balão de gás furado.
A velha HG.8000 em forma de colher torrada com desembaçador traseiro e seus 33 hair-bags intactos agora esfriava no espaço fumegando feito uma brasa entre as estrelas. O hagagerom segurou o manche derretido com os dentes pois seus dedos agora faziam parte do manche, apontou o nariz carbonizado da nave novamente para o inferno de onde tinha sido jogado decidido a descarregar o compartimento 666 de uma vez por todas, então verificou que já não havia mais nada no compartimento 666, alías, nem o compartimento 666 havia. O impacto tinha aberto um buraco enorme debaixo da aeronave.
– Missão cumprida, – A pequena fenda gosmenta babou de satisfação debaixo da axila. – seja lá o que tinha que ser despejado já foi despejado.
Encontrou no console, que agora não passava de um monte de plástico negro derretido, o botão de comunicação com o PXMestre. Incrivelmente ainda funcionava.
– Piloto hagagerom informando: missão cumprida com êxito. Aeronave com alguns arranhões mas em condições de voo. Diretrizes de retorno a base calculada e inserida esperando confirmação. Positivo?
– Trinccczzz ...sugiro a seguinte formação: Soquete no gol, depois Biguá e Mandivaldo, Cordinha, Sapólio e Cadarço...
– ...? Piloto hagagerom retornando a base. – disse o hagagerm sorrindo e babando de satisfação pela pequena fenda abaixo do mamilo chamuscado.
– Trinccczzz... Ferrolho, Xexéu, Luke Skywalker e Perenildo,...
A velha HG.8000 em forma de colher desapareceu no espaço deixando atrás de si um rastro de fumaça. Seja o que for, que estivesse no compartimento 666 agora fazia parte dos ingredientes daquela viscosa sopa química, rotacionando, fundindo, volatizando, agregando, ocupando um lugar na ordem daquele caos onde cada explosão parecia ter seu próprio e condenado tempo de explodir, onde cada partícula cósmica alinhavava seu fatídico e inexorável arremate no tecido universal.
– Câmbio. Desligo
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A morte é coisa do governo
Então é isso: um dia você acorda como quem não quer nada com a vida e muito menos com a morte e, pimba! Morre. Ninguém perguntou pra você: “Que tal dar uma morridinha hoje?” Nada. Nem uma pista. Tipo, sei lá, você acorda e vê o Charles Aznavour passar no corredor. Meu ex-cunhado me contou que a sogra dele jurou que viu o Charles Aznavour na fila do açougue pela manhã e a tarde a velha esticou as canelas.
– Será que todo mundo vê o Charles Aznavour, antes de morrer? – me perguntou assustado quando nos encontramos no velório.
É uma pista entende? Você acorda e vê o Charles Aznavour passar na porta do seu quarto. Imediatamente liga pra sua namorada:
– Liguei só pra dizer que te amo
– Sei. No mínimo você viu o Charles Aznavour.
Sacanagem. Acordar um dia bem cedinho, – coisa que você detesta, – disposto a dar umas dez voltas na praça, – coisa que você odeia, – pra perder a barriga e não chegar a completar uma volta inteira ao redor da cama. Puft! lá está você, espetequiado no chão, só de cuecas, um saco plástico em volta da barriga e um tênis caríssimo da Adidas novinho nos pés. Sacanagem.
Eu tenho uma tese muito interesante a respeito da morte. É tudo uma grande armação. É “coisa do governo”.
Você está em casa só de cuecas, sozinho como a tempos não se via, a mulher saiu, as crianças estão na praia, você vai até a cozinha, abre a geladeira, pega uma cervejinha, escuta o silêncio da casa e vai dançando até a sala pra ligar a tv. O jogo já vai começar. Batem na porta. Sacanagem:
– Seu Donário Pintaúde está?
– Sou eu mesmo.
– Podemos conversar?
Antes de você dizer que só conversa de cuecas com a patroa no escuro ou com o seu urologista no consultório o homem vai entrando.
Tá de óculos escuros, traz uma pequena maleta de couro em uma das mãos, veste um terno roxo impecável com uma pequena foice de ouro na lapela. Tem um sorriso congelado no rosto. Você aponta um sofa e pensa se deve ou não oferecer cerveja. O cara não tem jeito de quem bebe cerveja. Pede licença para vestir as calças mas o sujeito não parece se importar e nem mesmo ter percebido que você esta só de cuecas.
– Seu Donário, claro que o sr. já ouviu falar da morte... – diz o homem se acomodando na poltrona e procurando um lugar onde colocar a maleta.
– Se é seguro de vida não estou interessado.
– Não é nada disso seu Donário, estou aqui para lhe informar que a morte não existe. – Ele fala aquilo como quem diz “o senhor acaba de ganhar sozinho na Mega Sena”.
– Se você é de alguma igreja está perdendo seu tempo.
– Não, não sou de nenhuma igreja. – diz o homem dando uma risadinha enquanto abre a maleta – Eu trabalho para o governo e lhe trago uma intimação. – Ele coloca uns papéis sobre a mesa de centro – Uma intimação de morte.
– Intimação de morte?!
– Exatamente. O senhor tem que morrer hoje.
– Hoje!?
– Pra ser mais exato, daqui a meia hora.
– Meia hora!!
– Isso mesmo. O senhor por favor assine aqui e aqui...
– Não vou assinar nada! Que história é essa de morte?
– Não se preocupe, a morte não é nada disso que o senhor está pensando.
– Pois fique sabendo que eu nem penso na morte, aliás, fiz um check-up semana passada e tirando essa frieira no pé que não cura nunca, minha saúde está perfeita e eu me recuso a morrer de frieira.
– Ninguém morre nem de frieira nem de nada seu Donário. – O homem sorri, pega os papéis de cima da mesa e folheia – O senhor sabe de cor o número da sua identidade?
– 801344172-07. Viu? Minha memória é uma beleza. Quer saber a escalação do time do Aimoré de Ferrolinho de 1937?
– Não é nescessário senhor Donário, isso realmente não importa. – o homem confere o número da identidade nos documentos – O que importa mesmo é o número da sua identidade. Na verdade esses algarismos seguem um critério universal que passam a fazer parte de incógnitas e coeficientes originando uma mecânica quântica onde o estudo da multiplicidade de uma equação diferencial binária gera uma definição de índice, entende? Não? Claro que não, nem eu entendo bem isso, mas não vem ao caso, o importante é o senhor saber que nós do governo decidimos quando um dos nossos cidadãos deve partir. Ou morrer, como se diz.
– Quer dizer que, baseado no número do meu RG o governo lhe mandou hoje aqui para me matar?
– Em tese...
– E como vai ser? Faca? revolver? veneno? Meu final é 7. Em tese, alguma coisa especial para os cidadãos com final 7?
– Compreendo a sua ironia, as reações humanas diante da morte são as mais diversas, uns ironizam, outros se revoltam... uns até se matam. Tem aqueles que tentam me matar, me subornar, mas acredite: tem gente que me agradece.
Donário vai até a cozinha. Precisa de outra cerveja. Não acredita no que está acontecendo. Pensa: Só pode ser uma pegadinha desses programas idiotas da tv. Vou meter um processo em cima deles, ah se vou! – Volta pra sala.
– Onde está a câmera?
– Fique tranquilo seu Donário, não filmamos nem gravamos absolutamente nada, o senhor pode desabafar se quiser, tudo que for dito nessa sala morre aqui.
– Inclusive eu?
– É assim que as coisa são seu Donário, sinto muito. Sei muito bem o que o senhor deve estar sentindo nesse momento.
– Sabe nada! O senhor já morreu alguma vez por acaso?
– Já, e por isso mesmo posso lhe garantir que não é o fim do mundo, confie em mim, o que o senhor chama de morte, nós chamamos de recolocação, o senhor simplesmente vai começar uma nova vida em outro lugar, tudo vai dar certo. Sempre deu. Quem já morreu não tem reclamado.
– Isso eu acredito. Posso buscar outra cerveja?
– Pode, mas não temos muito tempo seu Donário, ou melhor o senhor não tem muito tempo – disse o homem olhando para o relógio.
– Quanto?
– Para ser exato, 12 minutos.
– O que?! 12 minutos de vida!?
– É tempo suficiente para o senhor tomar a sua cerveja e assinar esses papéis.
– E Machu Pichu? Eu queria ir a Machu Pichu antes de morrer?
– Acho que o senhor vai ter que se contentar com a cerveja.
Donário abre a geladeira. Conta as cervejas. Seis. Quem vai tomar as outras cinco? E as azeitonas? o seu patê de fígado de ganso, o pedaço de pizza de ontem? Quem vai comer? Isso não pode estar acontecendo com ele. Volta pra sala.
– Se isso é algum tipo novo de sequestro nem perca seu tempo. Minha família não vai pagar nada pra me ter de volta. Ainda mais depois do que eu fiz no aniversário da Glorinha.
– Que porre hem seu Donário?
– Como o senhor sabe disso?
– Isso não vem ao caso. Lhe garanto que não sou nenhum sequestrador seu Donário só estou fazendo o meu trabalho.
– Você chama isso de trabalho? Pegar cidadãos de bem só de cuecas em casa e intimálos a morrer?
O homem olha novamente o relógio.
– Dez minutos seu Donário.
– Não me pressione! Me recuso a morrer estressado. Preciso pensar.
– Não tem muito o que pensar. Aceite a vida como ela é e pronto, assine logo esses papéis.
– A questão aqui não é aceitar a vida e sim a sua proposta indecorosa de morte, ou melhor a sua sentença de morte. Não tem outra maneira da gente resolver isso? Quem sabe a gente...
– Não tente me subornar seu Donário, as coisas podem ficar mais complicadas ainda para o senhor.
– Eu tenho o que? oito minutos de vida e você diz que as coisas podem se complicar ainda mais!?
– Sete
– Não me pressione!
– Acalme-se por favor, entenda, vida ou morte, não tem diferença, no fundo é tudo um sequestro, entende? Cuidado com esse copo de cerveja, não vai me molhar a papelada.
– E pra onde o governo vai me levar? Já sei, outro planeta. Sempre desconfiei daquele monte de dinheiro jogado fora pela Nasa só pra tocar uma músiquinha dos Beatles no espaço.
– Nada disso, o senhor vai ficar aqui mesmo, na boa e velha Terrinha. O nosso planeta tem lugares que o senhor nem imagina. Esqueça todos os mapas que o senhor já viu. Todas as informações físicas que o senhor tem sobre nosso planeta são falsas. O Google Heart é nosso assim como todo o resto.
– Não acredito!
– Só morrendo prá saber. É assim que funciona. Algumas pessoas são avisadas dias antes da remoção, outras algumas horas e outras ainda em cima da hora, isso depende do histórico evolutivo e comportamental de cada um. Sempre foi assim. É uma maneira que os governos acharam de manter o equilíbrio físico e mental da raça humana e dessa forma evitar a nossa extinção.
– Não posso acreditar nisso...
– O senhor já falou com alguém que já morreu.
– Prá falar a verdade, nunca.
– Pois é.
– E minha mulher, meus filhos, emprego, casa. Minha coleção do Jerry Lewis?
– Esqueça. Isso não lhe pertence. Na verdade nunca foram seus. Suas ligações afetivas, não importa o grau, foram de alguma forma manipuladas, induzidas.Vendidas.
– Essa não! Eu não comprei aquela mulher, digo, a Cleusinha, minha mulher.
– Comprou sim seu Donário. De certa forma o senhor comprou até a sua sogra.
– Agora você está me chamando de burro.
– Vamos, assine logo isso. – disse o homem lhe estendendo uma caneta.
– Minha casa. Levei anos para construir, paguei tijolo por tijolo com o suor do meu trabalho e o senhor vem me dizer que ela nunca me pertenceu?
– Para se ter uma casa é preciso ter um espaço, de terra ou de água ou de ar nesse planeta e o planeta definitivamente não é de ninguém. Sendo de ninguém, muito menos é seu. Os tijolos que o senhor comprou são feitos de barro, o barro é da terra, a terra não é de ninguém, sendo de ninguém...
Você pega a caneta e resignado procura onde assinar. Tenta ler alguma coisa mas os olhos estão embaçados. Começa a rezar.
– E Deus? han? – pergunta segurando a caneta no ar. — É a sua última esperança.
– Não mude de assunto.
– Onde Ele se encaixa nessa história toda?
– Ele não se encaixa, nós o encaixamos nessa história toda. Agora por favor, assine aqui e aqui, e aqui antes do infarto.
– Que infarto?
– O senhor vai ser vítima de um infarto fulminante daqui a alguns segundos. Se o senhor não assinar agora, antes de morrer, depois vai ser um inferno.
– Preciso avisar a Cleusinha!
– Onde está a sua mulher?
– Saiu, foi no teatro ver o Charles Aznavour.
– Será que todo mundo vê o Charles Aznavour, antes de morrer? – me perguntou assustado quando nos encontramos no velório.
É uma pista entende? Você acorda e vê o Charles Aznavour passar na porta do seu quarto. Imediatamente liga pra sua namorada:
– Liguei só pra dizer que te amo
– Sei. No mínimo você viu o Charles Aznavour.
Sacanagem. Acordar um dia bem cedinho, – coisa que você detesta, – disposto a dar umas dez voltas na praça, – coisa que você odeia, – pra perder a barriga e não chegar a completar uma volta inteira ao redor da cama. Puft! lá está você, espetequiado no chão, só de cuecas, um saco plástico em volta da barriga e um tênis caríssimo da Adidas novinho nos pés. Sacanagem.
Eu tenho uma tese muito interesante a respeito da morte. É tudo uma grande armação. É “coisa do governo”.
Você está em casa só de cuecas, sozinho como a tempos não se via, a mulher saiu, as crianças estão na praia, você vai até a cozinha, abre a geladeira, pega uma cervejinha, escuta o silêncio da casa e vai dançando até a sala pra ligar a tv. O jogo já vai começar. Batem na porta. Sacanagem:
– Seu Donário Pintaúde está?
– Sou eu mesmo.
– Podemos conversar?
Antes de você dizer que só conversa de cuecas com a patroa no escuro ou com o seu urologista no consultório o homem vai entrando.
Tá de óculos escuros, traz uma pequena maleta de couro em uma das mãos, veste um terno roxo impecável com uma pequena foice de ouro na lapela. Tem um sorriso congelado no rosto. Você aponta um sofa e pensa se deve ou não oferecer cerveja. O cara não tem jeito de quem bebe cerveja. Pede licença para vestir as calças mas o sujeito não parece se importar e nem mesmo ter percebido que você esta só de cuecas.
– Seu Donário, claro que o sr. já ouviu falar da morte... – diz o homem se acomodando na poltrona e procurando um lugar onde colocar a maleta.
– Se é seguro de vida não estou interessado.
– Não é nada disso seu Donário, estou aqui para lhe informar que a morte não existe. – Ele fala aquilo como quem diz “o senhor acaba de ganhar sozinho na Mega Sena”.
– Se você é de alguma igreja está perdendo seu tempo.
– Não, não sou de nenhuma igreja. – diz o homem dando uma risadinha enquanto abre a maleta – Eu trabalho para o governo e lhe trago uma intimação. – Ele coloca uns papéis sobre a mesa de centro – Uma intimação de morte.
– Intimação de morte?!
– Exatamente. O senhor tem que morrer hoje.
– Hoje!?
– Pra ser mais exato, daqui a meia hora.
– Meia hora!!
– Isso mesmo. O senhor por favor assine aqui e aqui...
– Não vou assinar nada! Que história é essa de morte?
– Não se preocupe, a morte não é nada disso que o senhor está pensando.
– Pois fique sabendo que eu nem penso na morte, aliás, fiz um check-up semana passada e tirando essa frieira no pé que não cura nunca, minha saúde está perfeita e eu me recuso a morrer de frieira.
– Ninguém morre nem de frieira nem de nada seu Donário. – O homem sorri, pega os papéis de cima da mesa e folheia – O senhor sabe de cor o número da sua identidade?
– 801344172-07. Viu? Minha memória é uma beleza. Quer saber a escalação do time do Aimoré de Ferrolinho de 1937?
– Não é nescessário senhor Donário, isso realmente não importa. – o homem confere o número da identidade nos documentos – O que importa mesmo é o número da sua identidade. Na verdade esses algarismos seguem um critério universal que passam a fazer parte de incógnitas e coeficientes originando uma mecânica quântica onde o estudo da multiplicidade de uma equação diferencial binária gera uma definição de índice, entende? Não? Claro que não, nem eu entendo bem isso, mas não vem ao caso, o importante é o senhor saber que nós do governo decidimos quando um dos nossos cidadãos deve partir. Ou morrer, como se diz.
– Quer dizer que, baseado no número do meu RG o governo lhe mandou hoje aqui para me matar?
– Em tese...
– E como vai ser? Faca? revolver? veneno? Meu final é 7. Em tese, alguma coisa especial para os cidadãos com final 7?
– Compreendo a sua ironia, as reações humanas diante da morte são as mais diversas, uns ironizam, outros se revoltam... uns até se matam. Tem aqueles que tentam me matar, me subornar, mas acredite: tem gente que me agradece.
Donário vai até a cozinha. Precisa de outra cerveja. Não acredita no que está acontecendo. Pensa: Só pode ser uma pegadinha desses programas idiotas da tv. Vou meter um processo em cima deles, ah se vou! – Volta pra sala.
– Onde está a câmera?
– Fique tranquilo seu Donário, não filmamos nem gravamos absolutamente nada, o senhor pode desabafar se quiser, tudo que for dito nessa sala morre aqui.
– Inclusive eu?
– É assim que as coisa são seu Donário, sinto muito. Sei muito bem o que o senhor deve estar sentindo nesse momento.
– Sabe nada! O senhor já morreu alguma vez por acaso?
– Já, e por isso mesmo posso lhe garantir que não é o fim do mundo, confie em mim, o que o senhor chama de morte, nós chamamos de recolocação, o senhor simplesmente vai começar uma nova vida em outro lugar, tudo vai dar certo. Sempre deu. Quem já morreu não tem reclamado.
– Isso eu acredito. Posso buscar outra cerveja?
– Pode, mas não temos muito tempo seu Donário, ou melhor o senhor não tem muito tempo – disse o homem olhando para o relógio.
– Quanto?
– Para ser exato, 12 minutos.
– O que?! 12 minutos de vida!?
– É tempo suficiente para o senhor tomar a sua cerveja e assinar esses papéis.
– E Machu Pichu? Eu queria ir a Machu Pichu antes de morrer?
– Acho que o senhor vai ter que se contentar com a cerveja.
Donário abre a geladeira. Conta as cervejas. Seis. Quem vai tomar as outras cinco? E as azeitonas? o seu patê de fígado de ganso, o pedaço de pizza de ontem? Quem vai comer? Isso não pode estar acontecendo com ele. Volta pra sala.
– Se isso é algum tipo novo de sequestro nem perca seu tempo. Minha família não vai pagar nada pra me ter de volta. Ainda mais depois do que eu fiz no aniversário da Glorinha.
– Que porre hem seu Donário?
– Como o senhor sabe disso?
– Isso não vem ao caso. Lhe garanto que não sou nenhum sequestrador seu Donário só estou fazendo o meu trabalho.
– Você chama isso de trabalho? Pegar cidadãos de bem só de cuecas em casa e intimálos a morrer?
O homem olha novamente o relógio.
– Dez minutos seu Donário.
– Não me pressione! Me recuso a morrer estressado. Preciso pensar.
– Não tem muito o que pensar. Aceite a vida como ela é e pronto, assine logo esses papéis.
– A questão aqui não é aceitar a vida e sim a sua proposta indecorosa de morte, ou melhor a sua sentença de morte. Não tem outra maneira da gente resolver isso? Quem sabe a gente...
– Não tente me subornar seu Donário, as coisas podem ficar mais complicadas ainda para o senhor.
– Eu tenho o que? oito minutos de vida e você diz que as coisas podem se complicar ainda mais!?
– Sete
– Não me pressione!
– Acalme-se por favor, entenda, vida ou morte, não tem diferença, no fundo é tudo um sequestro, entende? Cuidado com esse copo de cerveja, não vai me molhar a papelada.
– E pra onde o governo vai me levar? Já sei, outro planeta. Sempre desconfiei daquele monte de dinheiro jogado fora pela Nasa só pra tocar uma músiquinha dos Beatles no espaço.
– Nada disso, o senhor vai ficar aqui mesmo, na boa e velha Terrinha. O nosso planeta tem lugares que o senhor nem imagina. Esqueça todos os mapas que o senhor já viu. Todas as informações físicas que o senhor tem sobre nosso planeta são falsas. O Google Heart é nosso assim como todo o resto.
– Não acredito!
– Só morrendo prá saber. É assim que funciona. Algumas pessoas são avisadas dias antes da remoção, outras algumas horas e outras ainda em cima da hora, isso depende do histórico evolutivo e comportamental de cada um. Sempre foi assim. É uma maneira que os governos acharam de manter o equilíbrio físico e mental da raça humana e dessa forma evitar a nossa extinção.
– Não posso acreditar nisso...
– O senhor já falou com alguém que já morreu.
– Prá falar a verdade, nunca.
– Pois é.
– E minha mulher, meus filhos, emprego, casa. Minha coleção do Jerry Lewis?
– Esqueça. Isso não lhe pertence. Na verdade nunca foram seus. Suas ligações afetivas, não importa o grau, foram de alguma forma manipuladas, induzidas.Vendidas.
– Essa não! Eu não comprei aquela mulher, digo, a Cleusinha, minha mulher.
– Comprou sim seu Donário. De certa forma o senhor comprou até a sua sogra.
– Agora você está me chamando de burro.
– Vamos, assine logo isso. – disse o homem lhe estendendo uma caneta.
– Minha casa. Levei anos para construir, paguei tijolo por tijolo com o suor do meu trabalho e o senhor vem me dizer que ela nunca me pertenceu?
– Para se ter uma casa é preciso ter um espaço, de terra ou de água ou de ar nesse planeta e o planeta definitivamente não é de ninguém. Sendo de ninguém, muito menos é seu. Os tijolos que o senhor comprou são feitos de barro, o barro é da terra, a terra não é de ninguém, sendo de ninguém...
Você pega a caneta e resignado procura onde assinar. Tenta ler alguma coisa mas os olhos estão embaçados. Começa a rezar.
– E Deus? han? – pergunta segurando a caneta no ar. — É a sua última esperança.
– Não mude de assunto.
– Onde Ele se encaixa nessa história toda?
– Ele não se encaixa, nós o encaixamos nessa história toda. Agora por favor, assine aqui e aqui, e aqui antes do infarto.
– Que infarto?
– O senhor vai ser vítima de um infarto fulminante daqui a alguns segundos. Se o senhor não assinar agora, antes de morrer, depois vai ser um inferno.
– Preciso avisar a Cleusinha!
– Onde está a sua mulher?
– Saiu, foi no teatro ver o Charles Aznavour.
domingo, 28 de agosto de 2011
Yes, nós temos fósforos!!
A HISTÓRIA QUASE NOS CONTA que um alquimista amador chamado Henning Brand foi quem descobriu o elemento phosphoro que mais tarde daria origem a uma das mais brilhantes invenções da humanidade: os palitos de fósforo.
Como todo bom alquimista, Henning também era obcecado pela tal Lapis Philoso-phorum ou seja, a Pedra Filosofal. Para aqueles que pensam que pedra filosofal são cálculos renais que se formam apenas nos rins de filósofos, carece uma explicação: Pedra Filosofal seria uma pedra ou um objeto que permitiria a transmutação de metais inferiores em ouro e de lambuja a obtenção do Elixir da Longa vida. Certa feita, manipulando amostras de urina de uma espécie de vagalume albino, Henning obteve um material que brilhava no escuro. Batizou a substância de phosphoros, que significa “aquele que traz a luz, que ilumina mas que não transforma coisa nenhuma em ouro.” As frustradas tentativas de henning levaram-no ao alcoolismo, tornou-se escravo do absinto, do ópio e da promiscuidade nas zonas de meretrício no lado escuro do rio Elba. Perdeu a mulher, o cachorro e foi excomungado pela igreja, ocasião em que proferiu a famosa frase: “Quem não tem pecados que atire a primeira pedra, eu tô fora” Abandonou de vez a já frágil camaradagem que ainda compartilhava com Deus e a busca pela Lapis Philosophorum. Comprou umas terras na ilha de Neuwerk e juntamente com uma prostituta tailandesa, um anão e dois cabritos passou a se dedicar a criação de vagalumes albinos. Tudo indica que também tenha fracassado nessa empreitada. (ou você por acaso já viu algum vagalume albino?)
Muitos anos depois, um ciêntista britânico que atendia pelo nome de Robert Boyle — não adiantava chama-lo por outro nome que ele fazia que nem era com ele, — percebeu que o fogo se fazia ao esfregar um pedaço de papel coberto com phósforo em um pedaço de madeira coberto com enxofre. Na época, um periódico muito conhecido, chegou a publicar a denúncia de um Pastor inglês chamado Samuel Jones que dizia ter provas de que a descoberta de Boyle era coisa do diabo:
– Essas nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas de colorido sutil vão virar palitos de cabeças incendiárias, milhares de pagãos andarão pelas ruas com esses malditos palitinhos no canto da boca, pais de famílias esquecerão seus filhos na porta da escola para jogar esses palitinhos nos bares, todo mundo um dia fuçará o ouvido com essas coisas até varar os tímpanos. Essa invenção demoníaca traz o fogo do inferno até nós e onde há fogo há fumaça, não vai demorar muito para que os devoradores de tabaco, tendo sua vida facilitada por essas pequenas tochas do mal caiam de vez nas garras do vício e empestem o sagrado ar dos nossos restaurantes, nossas aeronaves, nossos shopping centers. Seremos todos pecadores passivos, lúcifer erguera seu tridente aos céus com nossos pulmões cancerosos balançando na ponta. Um dia alguém ainda vai bater uma caixinha cheia disso e fazer um samba, um réquiem da criatura para o criador. – profetizou o pastor Samuel Jones.
Apesar da denúncia feroz do pastor, a combinação fósforo-enxofre de Robert Boyle foi um sucesso. Tinha sido dada a largada para a corrida do fósforo:
Plinio Röss lança o Pó-de-fósforo. Dietrini Morengo inventa a Pá-de-fósforo. Demétrius Yang vem logo atrás com seu Pé-de-fósforo. Deleitão Grüd sufoca o mundo com seu Pum-de-fósforo. Ameline Laile arranca suspiros com seu Pon-pon de-fósforo. Severina Gardênia surpreende a todos com seu Pirão-de-fósforo. Pierrí de Luvenez contra ataca com o Purê-de-fósforo. Donatello Berluscio entra no rodízio com sua Pizza-de-fósforo. O general Rudolpho Collera assusta a todos com seu Pavio-curto-de-fósforo. Doutor Wally Diners traz a sua Pílula-de-fósforo.Van Verniner pinta no pedaço com um Pincel-de-fósforo.
Finalmente, um farmacêutico inglês chamado John Walker veio com seu Palito de fósforo e acabou com a festa, dando início a uma nova era para a humanidade. Dois anos depois, Walker perdeu a patente do invento num jogo de pocker para outro Inglês, filho de um pastor, chamado Samuel Jones Filho, que passou a comercializar os palitos com o nome de Lucifers.
Esta é só uma pequena parte da história desta maravilhosa e revolucionária invenção. Se você é dono de um Zippo dourado e olha com desdém para o tipo faceiro ao seu lado que acaba de tirar uma caixinha de fósforos do bolso, saiba que:
No planeta Zapdellax, ou você vai até a beira de um vulcão para acender a velinha do seu aniversário e provavelmente a festinha vai acabar com todos os convidados soprando você, ou vai a caça de um xixingo. Xixingo é um animal parecido com um tamanduá bandeira só que sem o cabo. Os xixingos possuem nas paredes da bexica um elemento muito parecido com o phosphoro que misturado com uma espécie de pasta de banana, depois de bem seco se transforma em pedra. Ai é só esfregar essa pedra nos chifres de um xoxongo, que é uma tipo de búfalo que eles tem lá, e pronto, pode cantar o parabéns prá você.
Em Suthra, onde a única forma de vida vive dentro de uma goiaba, só se consegue uma faisca fricionando violentamente os orgãos sexuais o que acaba transformando qualquer churrascada numa tremenda orgia. Você jamais vai comer uma maminha mal passada no planeta Suthra.
Em Lixfu eles estão bem perto da descoberta da cabeça do palito mas a anos luz de conceber qualquer tipo de haste.
No planeta Torfho já conhecem o palito mas nem imaginam como fazer fogo com aquilo. A tendência é que inventem o cotonete muito antes do palito de fósforo visto que os torfhonianos tem sete orelhas.
Em Gurvill já inventaram a caixinha mas não sabem o que colocar dentro.
Enquanto você está distraído lendo estas linhas, é quase certo que uma nave de forma parecida com alguma coisa muito não identificada esta dando voltas em torno do nosso planeta de olho nos nossos fósforos. Yes, nós temos fósforo. É coisa nossa. Somos a única forma de vida no universo que equilibra o fogo no palito. Em outras paragens de nossa infinita galáxia, a raça humana é conhecida como “Aqueles macacos que inventaram o palito de fósforo” Saiba que por isso somos invejados até os ossos por seres extraterrestres que seguidamente nos visitam para roubar nossos palitos. Ou você acredita que essas criaturas atravessam o universo só para tomar um caldo de cana em Varginha?
Como todo bom alquimista, Henning também era obcecado pela tal Lapis Philoso-phorum ou seja, a Pedra Filosofal. Para aqueles que pensam que pedra filosofal são cálculos renais que se formam apenas nos rins de filósofos, carece uma explicação: Pedra Filosofal seria uma pedra ou um objeto que permitiria a transmutação de metais inferiores em ouro e de lambuja a obtenção do Elixir da Longa vida. Certa feita, manipulando amostras de urina de uma espécie de vagalume albino, Henning obteve um material que brilhava no escuro. Batizou a substância de phosphoros, que significa “aquele que traz a luz, que ilumina mas que não transforma coisa nenhuma em ouro.” As frustradas tentativas de henning levaram-no ao alcoolismo, tornou-se escravo do absinto, do ópio e da promiscuidade nas zonas de meretrício no lado escuro do rio Elba. Perdeu a mulher, o cachorro e foi excomungado pela igreja, ocasião em que proferiu a famosa frase: “Quem não tem pecados que atire a primeira pedra, eu tô fora” Abandonou de vez a já frágil camaradagem que ainda compartilhava com Deus e a busca pela Lapis Philosophorum. Comprou umas terras na ilha de Neuwerk e juntamente com uma prostituta tailandesa, um anão e dois cabritos passou a se dedicar a criação de vagalumes albinos. Tudo indica que também tenha fracassado nessa empreitada. (ou você por acaso já viu algum vagalume albino?)
Muitos anos depois, um ciêntista britânico que atendia pelo nome de Robert Boyle — não adiantava chama-lo por outro nome que ele fazia que nem era com ele, — percebeu que o fogo se fazia ao esfregar um pedaço de papel coberto com phósforo em um pedaço de madeira coberto com enxofre. Na época, um periódico muito conhecido, chegou a publicar a denúncia de um Pastor inglês chamado Samuel Jones que dizia ter provas de que a descoberta de Boyle era coisa do diabo:
– Essas nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas de colorido sutil vão virar palitos de cabeças incendiárias, milhares de pagãos andarão pelas ruas com esses malditos palitinhos no canto da boca, pais de famílias esquecerão seus filhos na porta da escola para jogar esses palitinhos nos bares, todo mundo um dia fuçará o ouvido com essas coisas até varar os tímpanos. Essa invenção demoníaca traz o fogo do inferno até nós e onde há fogo há fumaça, não vai demorar muito para que os devoradores de tabaco, tendo sua vida facilitada por essas pequenas tochas do mal caiam de vez nas garras do vício e empestem o sagrado ar dos nossos restaurantes, nossas aeronaves, nossos shopping centers. Seremos todos pecadores passivos, lúcifer erguera seu tridente aos céus com nossos pulmões cancerosos balançando na ponta. Um dia alguém ainda vai bater uma caixinha cheia disso e fazer um samba, um réquiem da criatura para o criador. – profetizou o pastor Samuel Jones.
Apesar da denúncia feroz do pastor, a combinação fósforo-enxofre de Robert Boyle foi um sucesso. Tinha sido dada a largada para a corrida do fósforo:
Plinio Röss lança o Pó-de-fósforo. Dietrini Morengo inventa a Pá-de-fósforo. Demétrius Yang vem logo atrás com seu Pé-de-fósforo. Deleitão Grüd sufoca o mundo com seu Pum-de-fósforo. Ameline Laile arranca suspiros com seu Pon-pon de-fósforo. Severina Gardênia surpreende a todos com seu Pirão-de-fósforo. Pierrí de Luvenez contra ataca com o Purê-de-fósforo. Donatello Berluscio entra no rodízio com sua Pizza-de-fósforo. O general Rudolpho Collera assusta a todos com seu Pavio-curto-de-fósforo. Doutor Wally Diners traz a sua Pílula-de-fósforo.Van Verniner pinta no pedaço com um Pincel-de-fósforo.
Finalmente, um farmacêutico inglês chamado John Walker veio com seu Palito de fósforo e acabou com a festa, dando início a uma nova era para a humanidade. Dois anos depois, Walker perdeu a patente do invento num jogo de pocker para outro Inglês, filho de um pastor, chamado Samuel Jones Filho, que passou a comercializar os palitos com o nome de Lucifers.
Esta é só uma pequena parte da história desta maravilhosa e revolucionária invenção. Se você é dono de um Zippo dourado e olha com desdém para o tipo faceiro ao seu lado que acaba de tirar uma caixinha de fósforos do bolso, saiba que:
No planeta Zapdellax, ou você vai até a beira de um vulcão para acender a velinha do seu aniversário e provavelmente a festinha vai acabar com todos os convidados soprando você, ou vai a caça de um xixingo. Xixingo é um animal parecido com um tamanduá bandeira só que sem o cabo. Os xixingos possuem nas paredes da bexica um elemento muito parecido com o phosphoro que misturado com uma espécie de pasta de banana, depois de bem seco se transforma em pedra. Ai é só esfregar essa pedra nos chifres de um xoxongo, que é uma tipo de búfalo que eles tem lá, e pronto, pode cantar o parabéns prá você.
Em Suthra, onde a única forma de vida vive dentro de uma goiaba, só se consegue uma faisca fricionando violentamente os orgãos sexuais o que acaba transformando qualquer churrascada numa tremenda orgia. Você jamais vai comer uma maminha mal passada no planeta Suthra.
Em Lixfu eles estão bem perto da descoberta da cabeça do palito mas a anos luz de conceber qualquer tipo de haste.
No planeta Torfho já conhecem o palito mas nem imaginam como fazer fogo com aquilo. A tendência é que inventem o cotonete muito antes do palito de fósforo visto que os torfhonianos tem sete orelhas.
Em Gurvill já inventaram a caixinha mas não sabem o que colocar dentro.
Enquanto você está distraído lendo estas linhas, é quase certo que uma nave de forma parecida com alguma coisa muito não identificada esta dando voltas em torno do nosso planeta de olho nos nossos fósforos. Yes, nós temos fósforo. É coisa nossa. Somos a única forma de vida no universo que equilibra o fogo no palito. Em outras paragens de nossa infinita galáxia, a raça humana é conhecida como “Aqueles macacos que inventaram o palito de fósforo” Saiba que por isso somos invejados até os ossos por seres extraterrestres que seguidamente nos visitam para roubar nossos palitos. Ou você acredita que essas criaturas atravessam o universo só para tomar um caldo de cana em Varginha?
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