segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A morte é coisa do governo

Então é isso: um dia você acorda como quem não quer nada com a vida e muito menos com a morte e, pimba! Morre. Ninguém perguntou pra você: “Que tal dar uma morridinha hoje?” Nada. Nem uma pista. Tipo, sei lá, você acorda e vê o Charles Aznavour passar no corredor. Meu ex-cunhado me contou que a sogra dele jurou que viu o Charles Aznavour na fila do açougue pela manhã e a tarde a velha esticou as canelas.
– Será que todo mundo vê o Charles Aznavour, antes de morrer? – me perguntou assustado quando nos encontramos no velório.
É uma pista entende? Você acorda e vê o Charles Aznavour passar na porta do seu quarto. Imediatamente liga pra sua namorada:
– Liguei só pra dizer que te amo
– Sei. No mínimo você viu o Charles Aznavour.
Sacanagem. Acordar um dia bem cedinho, – coisa que você detesta, – disposto a dar umas dez voltas na praça, – coisa que você odeia, – pra perder a barriga e não chegar a completar uma volta inteira ao redor da cama. Puft! lá está você, espetequiado no chão, só de cuecas, um saco plástico em volta da barriga e um tênis caríssimo da Adidas novinho nos pés. Sacanagem.
Eu tenho uma tese muito interesante a respeito da morte. É tudo uma grande armação. É “coisa do governo”.
Você está em casa só de cuecas, sozinho como a tempos não se via, a mulher saiu, as crianças estão na praia, você vai até a cozinha, abre a geladeira, pega uma cervejinha, escuta o silêncio da casa e vai dançando até a sala pra ligar a tv. O jogo já vai começar. Batem na porta. Sacanagem:
– Seu Donário Pintaúde está?
– Sou eu mesmo.
– Podemos conversar?
Antes de você dizer que só conversa de cuecas com a patroa no escuro ou com o seu urologista no consultório o homem vai entrando.
Tá de óculos escuros, traz uma pequena maleta de couro em uma das mãos, veste um terno roxo impecável com uma pequena foice de ouro na lapela. Tem um sorriso congelado no rosto. Você aponta um sofa e pensa se deve ou não oferecer cerveja. O cara não tem jeito de quem bebe cerveja. Pede licença para vestir as calças mas o sujeito não parece se importar e nem mesmo ter percebido que você esta só de cuecas.
– Seu Donário, claro que o sr. já ouviu falar da morte... – diz o homem se acomodando na poltrona e procurando um lugar onde colocar a maleta.
– Se é seguro de vida não estou interessado.
– Não é nada disso seu Donário, estou aqui para lhe informar que a morte não existe. – Ele fala aquilo como quem diz “o senhor acaba de ganhar sozinho na Mega Sena”.
– Se você é de alguma igreja está perdendo seu tempo.
– Não, não sou de nenhuma igreja. – diz o homem dando uma risadinha enquanto abre a maleta – Eu trabalho para o governo e lhe trago uma intimação. – Ele coloca uns papéis sobre a mesa de centro – Uma intimação de morte.
– Intimação de morte?!
– Exatamente. O senhor tem que morrer hoje.
– Hoje!?
– Pra ser mais exato, daqui a meia hora.
– Meia hora!!
– Isso mesmo. O senhor por favor assine aqui e aqui...
– Não vou assinar nada! Que história é essa de morte?
– Não se preocupe, a morte não é nada disso que o senhor está pensando.
– Pois fique sabendo que eu nem penso na morte, aliás, fiz um check-up semana passada e tirando essa frieira no pé que não cura nunca, minha saúde está perfeita e eu me recuso a morrer de frieira.
– Ninguém morre nem de frieira nem de nada seu Donário. – O homem sorri, pega os papéis de cima da mesa e folheia – O senhor sabe de cor o número da sua identidade?
– 801344172-07. Viu? Minha memória é uma beleza. Quer saber a escalação do time do Aimoré de Ferrolinho de 1937?
– Não é nescessário senhor Donário, isso realmente não importa. – o homem confere o número da identidade nos documentos – O que importa mesmo é o número da sua identidade. Na verdade esses algarismos seguem um critério universal que passam a fazer parte de incógnitas e coeficientes originando uma mecânica quântica onde o estudo da multiplicidade de uma equação diferencial binária gera uma definição de índice, entende? Não? Claro que não, nem eu entendo bem isso, mas não vem ao caso, o importante é o senhor saber que nós do governo decidimos quando um dos nossos cidadãos deve partir. Ou morrer, como se diz.
– Quer dizer que, baseado no número do meu RG o governo lhe mandou hoje aqui para me matar?
– Em tese...
– E como vai ser? Faca? revolver? veneno? Meu final é 7. Em tese, alguma coisa especial para os cidadãos com final 7?
– Compreendo a sua ironia, as reações humanas diante da morte são as mais diversas, uns ironizam, outros se revoltam... uns até se matam. Tem aqueles que tentam me matar, me subornar, mas acredite: tem gente que me agradece.
Donário vai até a cozinha. Precisa de outra cerveja. Não acredita no que está acontecendo. Pensa: Só pode ser uma pegadinha desses programas idiotas da tv. Vou meter um processo em cima deles, ah se vou! – Volta pra sala.
– Onde está a câmera?
– Fique tranquilo seu Donário, não filmamos nem gravamos absolutamente nada, o senhor pode desabafar se quiser, tudo que for dito nessa sala morre aqui.
– Inclusive eu?
– É assim que as coisa são seu Donário, sinto muito. Sei muito bem o que o senhor deve estar sentindo nesse momento.
– Sabe nada! O senhor já morreu alguma vez por acaso?
– Já, e por isso mesmo posso lhe garantir que não é o fim do mundo, confie em mim, o que o senhor chama de morte, nós chamamos de recolocação, o senhor simplesmente vai começar uma nova vida em outro lugar, tudo vai dar certo. Sempre deu. Quem já morreu não tem reclamado.
– Isso eu acredito. Posso buscar outra cerveja?
– Pode, mas não temos muito tempo seu Donário, ou melhor o senhor não tem muito tempo – disse o homem olhando para o relógio.
– Quanto?
– Para ser exato, 12 minutos.
– O que?! 12 minutos de vida!?
– É tempo suficiente para o senhor tomar a sua cerveja e assinar esses papéis.
– E Machu Pichu? Eu queria ir a Machu Pichu antes de morrer?
– Acho que o senhor vai ter que se contentar com a cerveja.
Donário abre a geladeira. Conta as cervejas. Seis. Quem vai tomar as outras cinco? E as azeitonas? o seu patê de fígado de ganso, o pedaço de pizza de ontem? Quem vai comer? Isso não pode estar acontecendo com ele. Volta pra sala.
– Se isso é algum tipo novo de sequestro nem perca seu tempo. Minha família não vai pagar nada pra me ter de volta. Ainda mais depois do que eu fiz no aniversário da Glorinha.
– Que porre hem seu Donário?
– Como o senhor sabe disso?
– Isso não vem ao caso. Lhe garanto que não sou nenhum sequestrador seu Donário só estou fazendo o meu trabalho.
– Você chama isso de trabalho? Pegar cidadãos de bem só de cuecas em casa e intimálos a morrer?
O homem olha novamente o relógio.
– Dez minutos seu Donário.
– Não me pressione! Me recuso a morrer estressado. Preciso pensar.
– Não tem muito o que pensar. Aceite a vida como ela é e pronto, assine logo esses papéis.
– A questão aqui não é aceitar a vida e sim a sua proposta indecorosa de morte, ou melhor a sua sentença de morte. Não tem outra maneira da gente resolver isso? Quem sabe a gente...
– Não tente me subornar seu Donário, as coisas podem ficar mais complicadas ainda para o senhor.
– Eu tenho o que? oito minutos de vida e você diz que as coisas podem se complicar ainda mais!?
– Sete
– Não me pressione!
– Acalme-se por favor, entenda, vida ou morte, não tem diferença, no fundo é tudo um sequestro, entende? Cuidado com esse copo de cerveja, não vai me molhar a papelada.
– E pra onde o governo vai me levar? Já sei, outro planeta. Sempre desconfiei daquele monte de dinheiro jogado fora pela Nasa só pra tocar uma músiquinha dos Beatles no espaço.
– Nada disso, o senhor vai ficar aqui mesmo, na boa e velha Terrinha. O nosso planeta tem lugares que o senhor nem imagina. Esqueça todos os mapas que o senhor já viu. Todas as informações físicas que o senhor tem sobre nosso planeta são falsas. O Google Heart é nosso assim como todo o resto.
– Não acredito!
– Só morrendo prá saber. É assim que funciona. Algumas pessoas são avisadas dias antes da remoção, outras algumas horas e outras ainda em cima da hora, isso depende do histórico evolutivo e comportamental de cada um. Sempre foi assim. É uma maneira que os governos acharam de manter o equilíbrio físico e mental da raça humana e dessa forma evitar a nossa extinção.
– Não posso acreditar nisso...
– O senhor já falou com alguém que já morreu.
– Prá falar a verdade, nunca.
– Pois é.
– E minha mulher, meus filhos, emprego, casa. Minha coleção do Jerry Lewis?
– Esqueça. Isso não lhe pertence. Na verdade nunca foram seus. Suas ligações afetivas, não importa o grau, foram de alguma forma manipuladas, induzidas.Vendidas.
– Essa não! Eu não comprei aquela mulher, digo, a Cleusinha, minha mulher.
– Comprou sim seu Donário. De certa forma o senhor comprou até a sua sogra.
– Agora você está me chamando de burro.
– Vamos, assine logo isso. – disse o homem lhe estendendo uma caneta.
– Minha casa. Levei anos para construir, paguei tijolo por tijolo com o suor do meu trabalho e o senhor vem me dizer que ela nunca me pertenceu?
– Para se ter uma casa é preciso ter um espaço, de terra ou de água ou de ar nesse planeta e o planeta definitivamente não é de ninguém. Sendo de ninguém, muito menos é seu. Os tijolos que o senhor comprou são feitos de barro, o barro é da terra, a terra não é de ninguém, sendo de ninguém...
Você pega a caneta e resignado procura onde assinar. Tenta ler alguma coisa mas os olhos estão embaçados. Começa a rezar.
– E Deus? han? – pergunta segurando a caneta no ar. — É a sua última esperança.
– Não mude de assunto.
– Onde Ele se encaixa nessa história toda?
– Ele não se encaixa, nós o encaixamos nessa história toda. Agora por favor, assine aqui e aqui, e aqui antes do infarto.
– Que infarto?
– O senhor vai ser vítima de um infarto fulminante daqui a alguns segundos. Se o senhor não assinar agora, antes de morrer, depois vai ser um inferno.
– Preciso avisar a Cleusinha!
– Onde está a sua mulher?
– Saiu, foi no teatro ver o Charles Aznavour.

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