Foi num dia cinza de inverno. Depois fiquei sabendo que na noite anterior muita gente havia morrido de frio. O Sujeito passou por mim todo encolhido com as orelhas cheias de algodão embebido em azeite morno. Era muito magro, quase raquítico, caminhava esquisito, todo curvado. Depois fiquei sabendo que o Sujeito amava uma mulher chamada Catarina.
Catarina era gorda, muito gorda, enorme. Todos os dias bebia conhaque sózinha depois da janta escutando bolero e todo o santo domingo ia almoçar com a irmã que era casada com o sujeito.
Todo santo domingo ela atravessava lentamente o corredor coberto por uma parreira de uvas que levava aos fundos da casa do sujeito balançando de um lado para o outro apertada dentro de um dos seus vestidos florais. O colo e parte do rosto branco de talco.
O Cachorro do sujeito vinha lhe fazer festa e ela tentava mantê-lo longe das varizes das pernas e do prato de ambrosia que equilibrava no ar.
A irmã gritava lá de dentro “Passa pra dentro cachorro!” Beijava a irmã, acenava para o sujeito, colocava a ambrosia na geladeira e ia fazer o chimarrão, depois encaixava a enorme bunda na cadeira de praia desbotada debaixo da parreira e ficava ali, em silêncio, tomando o mate e vendo o sujeito abanar o carvão. “cada vez mais magro” pensava.
O cachorro ficava em volta da churrasqueira, as vezes vinha lhe cheirar e ela o enxotava encolhendo rapidamente as pernas. A irmã gritava lá de dentro “Sai daí cachorro! que bixo enjoado.” Depois a irmã acusava o sujeito de estar vendo os modos do cachorro e não fazer nada. A irmã vez por outra saia da cozinha enxugando as mãos no avental, pedia um mate e comentava qualquer coisa sobre o sujeito, sobre o cachorro e que precisava ir ao médico “ver” aquela dor que ela tinha nas costas.
Catarina não gostava de conversar, gostava de ficar ali, olhando o sujeito espetar a carne, olhando o cachorro do sujeito se coçar, olhando a irmã descascar as batatas para a maionese. Também não gostava de maionese mas gostava de ver a irmã sair pela porta da cozinha com o prato de batatas na mão fumegando e colocá-lo na mesa da varanda para esfriar.
O sujeito era de poucas palavras, quase nenhumas e quando falava tinha uma voz estranha e abafada. A irmã falava por ele “O sujeito essa semana foi ao médico, acho que vai ter que operar o ouvido. O sujeito não sabe comprar carne. O sujeito continua cada vez mais magro, um dia vai desaparecer. Essa semana o sujeito isso e aquilo e aquilo outro”. Catarina só balançava a cabeça.
Depois Catarina ajudava a irmã a por a mesa, sempre tentando manter o cachorro longe das varizes. A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! que bixo nojento”. Depois a irmã ia tomar banho, era costume, “tirar a cozinha do corpo” dizia ela. Catarina ia pra pia lavar a louça da função e sentia o olhar do sujeito espiando sua grande bunda pela janela.
O sujeito batia os espetos lá fora para tirar o excesso de sal da carne. Como sempre a irmã iria reclamar que a carne estava salgada e que da próxima vez ele batesse melhor os espetos porque ela tinha que cuidar da pressão que não era boa e que o sal era um veneno. As duas esperavam sentadas o sujeito entrar com a carne.
O cachorro se escondia debaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas.
A irmã gritava “Passa pra rua cachorro! esse bixo não tem ouvido”. O sujeito separava um osso e atirava no quintal, o cachorro saia correndo arrastando tudo que tinha pela frente. O sujeito batia a porta e abria o vinho. Comiam em silêncio escutando o cachorro chorar e arranhar a porta.
A irmã comia pouco e muito ligeiro e em seguida cruzava os talheres no meio do prato depois ficava falando que dava uma coisa nela de ver os dois comerem daquele jeito e que aquilo não podia fazer bem. Falava que o sujeito era magro de ruim. Falava das novelas, dos assaltados da semana, do governo, do cachorro que estava estragando toda a porta com “aquelas” unhas. O sujeito balançava a garrafa do vinho vazia e a irmã ia buscar outra. Catarina gostava de ver a irmã caminhar até a geladeira e pegar o vinho. A irmã ainda era bonita, os cabelos úmidos, presos no alto da cabeça, o corpo ainda tinha curvas e continuava leve. Que inveja.
O Sujeito terminava de comer e acendia um cigarro. Ficava ali fumando, palitando os dentes e bebendo vinho, a irmã falava que o cigarro ainda ia acabar com ele. Catarina continuava comendo e a irmã perguntava como ela podia comer tanto e que ela deveria criar vergonha e fazer um regime e que era por isso que ela ainda continuava solteira “que tipo de homem casaria com uma baleia dessas?” Catarina sorria, com a boca de lábios finos engordurados e cheios de farinha.
O sujeito agora desenhava um meio sorriso no rosto que mais parecia com uma cãimbra e ficava olhando ela terminar de comer, se certificava de que a garrafa estava vazia e levantava cambaleante da mesa, pegava uns ossos do prato e abria a porta, era quando o cachorro entrava correndo e se enfiava de novo embaixo da mesa. Catarina encolhia as pernas. A irmã: “Passa pra rua cachorro! que bixo chato”. O sujeito jogava os ossos no quintal e o animal saia em disparada. O sujeito ficava de pé, escorado na porta vendo o cachorro triturar os ossos. Acendia outro cigarro e a irmã mesmo sabendo que era outro cigarro perguntava “Outro cigarro!?”
As duas ficavam olhando o sujeito parado na porta. A irmã esperando que o sujeito se virasse e a convidasse para ir deitar com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que Catarina raspou os pratos sózinha, tirou a mesa, lavou a louça e depois ficou sentada no degrau da porta comendo a ambrosia. Quando a irmã voltou para a cozinha ela já tinha ido embora. Catarina, olhando o sujeito de pé na porta esperando que ele se virasse e as convidasse para sair com ele como acontecera um domingo a muito tempo atrás em que os três foram para o Parque da Redenção e comeram pipoca e andaram de pedalinho no lago e depois ela e a irmã andaram de roda gigante fazendo caretas uma para a outra e rindo até não poder mais. Mas isso foi um domingo a muito tempo atrás, agora o sujeito terminava o cigarro, resmungava alguma coisa para o cachorro e ia para o quarto, se atirava na cama e dormia com aquele sorriso congelado no rosto.
Como sempre, ninguém tocára na maionese e a irmã falava que era pecado ninguém tocar na maionese e que a vida dela era uma merda o cachorro era um merda o sujeito era um merda e que ela, Catarina, era um saco de merda, uma imprestável e que jamais conseguiria um homem para ela porque ela era uma balofa e depois desandava a chorar debruçada na mesa. Catarina cobria a salada e os restos de carne e ficava olhando o balé enlouquecido das moscas em volta. Sempre se perguntava se as moscas eram as mesmas. Depois a irmã parava de chorar, suspirava fundo e ia buscar a ambrosia e as duas ficavam ali escutando o ronco irritante do sujeito lá no quarto. Era quando Catarina olhava para os olhos vermelhos e tristes da irmã e sorria. A irmã continuava com o olhar perdido, então Catarina sorria outra vez e fazia umas caretas, as mesmas caretas que as duas faziam uma para a outra quando eram crianças. A irmã tentava esconder o rosto mas Catarina não desistia até que as duas caiam na gargalhada e era quando o sujeito acordava assustado do mesmo pesadelo em que as irmãs lhe esquartejavam e arrancavam a cabeça e colocavam num prato de ambrosia dentro da geladeira e aos domingos faziam churrasco com uma parte do seu corpo, traziam sua cabeça para a mesa e bebiam vinho e gargalhavam e jogavam seus ossos para o cachorro.
O sujeito se encolhia na cama apavorado, ficava ali, quieto, escutando o barulho dos dentes do cachorro triturando os ossos lá no quintal e a voz das irmãs na cozinha conversando sobre os triciclos da infância, os cíclos da vida e o ciclone que um dia riscaria do mapa todos os vestígios desta civilização que tem cu e que bebe vinho e come vaquinhas e boizinhos e porquinhos e leite azêdo aos domingos.
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