Desci para ir ao supermercado e me deparei com um burburinho no pátio do condomínio. Não lembrava de ter sido notificado de nenhuma reunião. Me aproximei do vizinho do 307 e perguntei o que tinha acontecido.
— Não soube? O morador do 221. A filha encontrou o cara morto dentro do apartamento
— Nossa!!
— Lembra dele?
— Acho que não.
— Aquele do cachorrinho pug. O Nelson.
— Ele se chamava Nelson?
— Não, o pug se chama Nelson. Um baixinho, de olho arregalado, todo enrrugadinho
— Ah, o cara já era velhinho?
— Não, o cachorro que é todo enrrugadinho.
— Acho que tô lembrado. Via ele seguido da minha janela levando o cachorrinho pra passear. Tinha uma coleirinha vermelha e amarela né?
— Esse mesmo.
— Que coisa triste.
— Pois é. A filha tentou falar com ele ontem à noite, como ele não atendeu o telefone, ela ficou preocupada e veio ver o que estava acontecendo. Ela tinha a chave do apartamento. Imagina o susto da coitada quando entrou e viu a cena.
— Nem me fala.
— Disse que ele tava deitado num canto da cozinha.
— Coitado! morreu preparando a janta.
— Não, o cachorrinho. Tava num canto da cozinha. Com a cara mais triste do mundo. Que coisa, né. Parece que o bichinho sabia que o dono tava morto lá no quarto.
Nisso se aproximou de nós o casal do 460. O do gato himalaia.
— O vizinho do 307 cumprimentou os dois e perguntou:
— Bom dia. Como vai o Frederico?
— Bem — disse o marido — espalhando mais pêlo que a Claudia Ohana numa suruba.
O vizinho do 307 ensaiou uma risadinha. eu fiz que não escutei a brincadeira fora de hora. A mulher disparou um olhar fulminante pro marido
— Que coisa horrível né? — disse a mulher dando um cotovelaço no fígado do engraçadinho — É por isso que eu sempre falo pra esse daqui: cuida desse coração, larga esse maldito cigarro, vai fazer umas caminhadas, mas não, até pra levar o Frederico na rua pra fazer as necessidades ele se custa. Vai acabar deixando o pobrezinho orfão de pai.
— A última vez que eu levei fomos parar os dois em cima de uma árvore cheio de cachorro em volta. Nunca mais.
— Tudo é desculpa pra não se mexer. Pode ser que agora, que o coitadinho do Nelson perdeu o pai, tu crie vergonha na cara.
— Que idade ele tinha será? — perguntei tentando desviar o assunto.
— Era novo. — disse o vizinho do 307 — Não mais que cinquenta
— O pug? não tinha mais de sete — respondeu a mãe do Frederico.
— Enrrugado daquele jeito? Só se for parente do Benjamin Button. — disse o engraçadinho levando outro cotovelaço da mulher
A velhinha do 104, que tem um coelhinho chamado Beltrão entrou na conversa:
— E agora, que será que vão fazer com o Nelsinho? — perguntou.
— Parece que a filha vai ficar com ele. — respondeu a mãe do Frederico
— Pobrezinho. Sou capaz de apostar que logo logo ele também morre.
O careca do linguiçinha chegou na roda e concordou.
— Isso é certo. Minha mãe tinha uma chiuaua, a Betona, morreu dois dias depois dela.
— Coitadinha! — exclamou a velhinha do coelho Beltrão.
— Amanheceu durinha na cama. — Disse o cara olhando diretamente pra mim. Pra não parecer antipático, me achei no dever de fazer uma bservação, mesmo sem conhecimento de causa:
— Essa raça é muito apegada ao dono.
— Mamãe era de origem polonesa. — Disse ele.
Fui salvo pela velhinha do coelho:
— Eu já botei no testamento: quando morrer quero que apliquem uma injeção letal no Beltrão e que enterrem o meu coelhinho junto comigo pois sei que ele não vai viver muito tempo longe de mim.
Fez-se um silêncio na roda. Não sei se de espanto, comiseração ou respeito pelo destino fatídico do beltrão.
— Quando eu morrer — disse o pai do Frederico tentando quebrar o clima de velório que se estabeleceu — não preciso de quatro patas de coelho no meu caixão. Uma figa me basta.
A mãe do Frederico não se grudou no pescoço dele por pouco.
— Bem, é uma pena, o que que se vai fazer? Vou indo, tenho que ir no supermercado fazer umas comprinhas pra semana. — me despedi rapidamente e me dirigi ao portão. No meio do caminho escutei um grito:
— Ô do 212! — Demorei um pouco para entender que era comigo. 212 é o número do meu apartamento. Era o vizinho do 307. — Vê se o leite tá em promoção no super, e na volta me diz. Pode ser? Fiz um sinal de afirmativo e segui em frente
Ele não sabe o meu nome — pensei — Ninguém no condomínio sabe meu nome. Vou acabar morrendo sozinho dentro daquele apartamento e vão me chamar de 212. Que merda! Se pelo menos eu tivesse um gato ou um cachorro iam se referir a mim como o “dono do fulano”. Me parece mais humano, sei lá.
Aquilo ficou me martelando todo o caminho: Ô do 212! Ô do 212! Na verdade, eu sempre quis ter um cachorro e por o nome de Spafrancocham. Mas não posso, não me sentiria bem sair todo o dia pra trabalhar e deixar o bichinho sozinho, preso no apartamento.
No supermercado, enquanto escolhia as compras, aquilo não me saía da cabeça. Não bastaria a morte, ainda teria que aguentar mais essa:
— Viu quem é que morreu? O 212.
Na portaria um bilhete no mural: Lamentamos informar o falecimento do 212.
A notícia no rádio seria: Essa manhã foi encontrado morto dentro do apartamento um homem conhecido como 212.
No Jornal nacional, um daqueles repórteres apontando a fachado do prédio diria: O homem, conhecido apenas como 212, morava aqui nesse condomínio de clase média da zona norte.
Na porta do céu: Que pena, — diria São Pedro, — hoje estamos com uma promoção de entrada franca sem passagem pelo umbral, mas só vale para os números impares.
Aqui jazz o 212.
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Na volta entrei numa Pet Shop e comprei um peixe. Batizei de Spafrancocham. Agora, todo fim de tarde, levo o bichinho pra passear na praça dentro de um saco plástico. Tá certo, tenho que aguentar as piadinhas do pai do Frederico: “E aí, já vacinou essa fera contra a raiva?” “ O Frederico mandou convidar o Spa pra jantá-lo” Fora isso, tô me sentindo bem melhor. Mais humano, sei lá.
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