Os dedos azuis tamborilavam nervosos no console de fórmica fosca rosada, outros dois, alaranjados, pendiam como duas cobras bêbadas num cabide de boate. Os dedos estavam presos a uma mão e essa a um braço fino e longo como deve ser o braço de um autêntico, orgulhoso e impaciente Hagagerom. Assim mesmo, com dois “gs” encurralando um “a”.
A pequena nave atravessou chacoalhando barulhenta as pesadas nuvens que despejavam aos gritos de trovão um oceano sobre a carne fumegante, recém saida do forno, daquele futuro planetinha mixuruca que como o próprio piloto definiu ao receber o mapa de trabalho, ficava no cú do universo, lá onde um deus e um diabo futuramente perderiam filho e botas e a curto prazo a moral e a credibilidade. Era ainda uma primitiva terra de ninguém, portanto, com certeza ninguém presenciou o pequeno ponto luminoso cortando o céu, corcoveando em meio aos relâmpagos,
Para um bom conhecedor de naves, meio relâmpago bastaria para identificar uma HG.8000 em forma de colher com desembaçador traseiro e 33 hair-bags que não funcionariam nem que um meteoro do tamanho de um estádio de futebol se chocasse contra sua típica lataria amarela, caracteristica das HGs.8000 da TRPnPIM do Espaço. (transporte de resíduos pulsantes e não-pulsantes indesejosos ao meio).
A velha nave, jogada pelo vento e pela chuva, rodopiou no ar desgovernada como uma bola de estilact oco nas mãos de um Gravilhano demente. Os dedos da criatura Hagagerom agora seguravam firmes o manche de chifres, todos os dedos laranjas enroscados no leme enquanto os azuis apertavam sem parar os niveladores horizontais a jato. Os dedos verdes, que tinham vida própria, procuravam um buraco onde se enfiar. Dentro do único e enorme olho do haga-gerom as duas iris corrian freneticamente pelos instrumentos no painel.
Finalmente a nave aprumou chiando alto, aos tremilicos, fazendo saltar dos braços doloridos do piloto velhas escamas no ar como confetes. O Hagagerom deu uma espiada pela pequena escotilha da HG.8000. Aquilo realmente era inervante, um planeta em formação. Tudo tremia, pulsava, cheirava mal e se contorcia ao som de ensurdecedores estrondos. Era o caos. Aquilo não podia acabar bem. No fundo era só mais um espasmo do universo, uma cólica intestinal que renderia apenas mais um minguado pontinho no universo. Era mais uma cacáca de mosca no grande lustre do infinito. – Merda! – ou qualquer coisa do gênero, resmungou o Hagagerom. A nave que agora balançava parada no ar a mais ou menos vinte metros do solo, vibrava feito uma varejeira bêbada.
O Hagagerom conferiu as coordenadas. O local do despejo com certeza era aquele. Agora vinha a parte pior da coisa toda: perguntar ao PXMestre se ele concordava com isso e nada podia ser pior para um Hagagerom que ter de perguntar para alguém, e as vezes até para ele mesmo, se concordava com uma decisão sua. Geralmente não era uma boa experiência para o alguém questionado. É bom que se diga que, o índice de suicídio entre os Hagagerons por não concordarem com eles mesmos era uma coisa preocupante, tanto que antes de serem instalados os PXMestre todas as naves de Transporte de Resíduos Pulsantes e Não-Pulsantes Indesejosos ao Meio eram tripuladas por duas criaturas Hagagerom, piloto e co-piloto. Como o universo é tremendamente infinito, as chances de acontecerem pequenas discordâncias durante uma missão também são infinitas, raramente uma nave voltava com a tripulação completa e sem pedaços gosmentos de cérebro grudados nas paredes.
Devido ao sério risco de extinção dos pilotos Hagagerom e a pressão do sindicato, a TRPnPIM do Espaço viu-se obrigada a desenvolver e instalar em todas as suas aeronaves o PXMestre, um super mentor eletrônico super inteligente com super poderes de super decisão. Instalados no console, bem ao lado do piloto, os PXMestre passaram a ser a assombração dos Haga-gerons e a super encher seus três sacos rosas sem piedade. De início aconteceu que as aeronaves começaram a voltar sem os computadores e não raro sem os consoles. Hoje os PXMestre são instalados num lugar completamente desconhecido dos pilotos Haga-gerons, nenhum piloto sabe a localização do computador de bordo e isso para um Hagagerom é um verdadeiro inferno. Já houve caso de um Hagagerom não conseguir retornar a base depois de desmanchar a nave em pleno voou procurando enlouquecido pelo computador que teria insinuado qualquer coisa a respeito do seu gosto musical.
O Hagagerom checou mais uma vez as coordenadas. Tudo certo, sem dúvida o local do despejo era aquele. Apertou com força o botão de comunicação com o PXMestre e perguntou contrariado:
– Briiinngztch quox ratrizxx ratccquiz frutirlzzz babalioruquaizxz pinmzzzz? (Coordenadas conferidas. Local de despejo confere. Aguardando abertura de compartimento de carga 666. Positivo?)
– Sbriingthhhh? (Tá brincando?)
– O Hagagerom se contorceu na cadeira e começou a abanar as orelhas, o que definitivamente não era um bom sinal.
– Repetindo. Calculos corretos, este é o lugar onde a carga deve ser guspida. – insistiu o Hagagerom.
– Nem perto. – retrucou o PXMestre – Sugiro recalcular as coordenadas.
Quer ver de que cor é seu fígado ao avesso, sugira UMA coisa a um hagagerom. (Uma pesquisa havia constatado que o verbo “sugerir”causava muita tensão nos Hagagerons por isso tinha sido abolido recentemente do vocabulário dos PXMestres e substituído por “Quem sabe” mas o PXMestre desta nave estava desatualizado)
– Seu cérebro oco valvulado! – gritou o Hagagerom – Saiba que jamais errei nem por um centímetro o local de um despejo, portanto, recalcule você suas coordenadas e abra logo o compartimento 666 antes que eu me aborreça.
– Pedido negado. Este não é o local do despejo. Sugiro que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali.
Quer tentar um relacionamento mais palpável e profundo com sua próstata sugira DUAS coisas a um hagagerom.
– Devo comunicá-lo que acabo de registrar um CB-761 no meu relatório. – continuou o PxMestre.
O Hagagerom pos o guia de códigos na tela do computador. Ali estava, CB-761 ou Cabeça-de-bagre 761, erro grave de ordem primática, idiótica, imbecílica, mentecáptica, palermica e asnal de consequencias imprevisiveis a aeronave e ao universo em geral. As consequencias a qual o piloto está sujeito estão relacionadas no final desse capítulo, página 544, paragrafo... O Hagagerom deu um murro no monitor e disse:
– Porque você não aproveita e cita também que a sua mãe é a boqueteira mais famosa no planeta Tripecornus – (Os Tripécornulianos são conhecidos em toda a galáxia pelo tamanho descomunal de sua genitália) – Seu filho de uma placa-mãe da zona! – Gritou o hagagerom batendo com a cabeça no painel, As orelhas do hagageron agora vibravam feito as asas de um beija-flor epilético.
– Reconhecendo as limitações do seu cérebro primitivo não levarei essa tentativa de insulto para o lado pessoal. Insisto que de uma espiada pela escotilha a sua direita, você verá a azulada estrela Joaneth que marca o pé esquerdo do caçador na constelação de Órion. Definitivamente ela não deveria estar ali. Agora mantenha a calma e retorne a base imediatamente. – disse o PxMestre com sua voz de veludo metalizado.
– Seu cérebro de bosta desaparafusado! Eu estou calmo! e esta nave só sai daqui depois que o compartimento 666 estiver vaziu. E mesmo que passasse uma manada de Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres pela escotilha a minha direita não daria para ver nada, muito menos a droga de um pé de caçador.
– Repetindo: sugiro que mantenha a calma e retorne a base imediatamente, local inapropriado para o despejo e inadequado para discussões levianas. E corrigindo: Búfalos-Philips-iluminados de cinco chifres não habitam essas paragens.
Não estivesse o hagagerom com todos os dedos azuis e laranjas ocupados tentando manter a nave no ar, teria arrancado seu próprio olho de raiva. Lá embaixo era um inferno só, a ebulição aumentava, bolas de fogo passavam a centímetros da nave que balançava violentamente rangendo como se fosse se partir a qualquer momento.
– Vamos logo com isso! – gritou o hagagerom – Abra de uma vez por todas a droga desse compartimento ou vamos acabar nos espatifando lá embaixo.
– Sugiro que leia o manual, página 335 páragrafo 2: “Quando o piloto, sobre forte situação de estress, sentir vontade de arrancar seu próprio olho deve manter todos os seus dedos ocupados e repetir mentalmente a seguinte maxima: piloto equilibrado, nave equilibrada...
– A nave não vai aguentar por muito tempo. Abra logo a droga desse compartimento! – gritou o Hagagerom.
– Piloto equilibrado, nave equilibrada
Um estrondo violento fez a HG.8000 girar feito uma piorra. Uma gigantesca onda incandescente cobriu a nave. O Hagagerom se sentiu um ovo de Curvilho-roxo cozinhando dentro de um micro-ondas. O alarme de emergência desconfiou que aquilo era uma emergência e começou a gritar.
– Perigo! A nave deve ser evacuada imediatamente para um local seguro e de preferência mais fresco. – recomendou o PxMestre.
– Desliga essa merda de alarme seu miolo de arruelas! Enquanto esse manche estiver nas minhas mãos a nave é minha e só saio daqui quando despejar o conteúdo do compartimento 666. – exclamou o Hagageron.
– Não seja tolo, muito antes da nave explodir seu cérebro mole vai derreter e você vai largar o manche, isso automaticamente passara os comandos da nave para mim, eu vou despejar o conteúdo do compartimento 666 no local correto, voltar a base e relatar o quanto descontrolado e burro um Hagageron pode ser dentro de uma nave e as consequências disso no equilibrio do universo e para a valiosa frota da companhia. Vai ser mais um ponto a favor da substituição da ralé Hagageron por nós, o futuro, os PxMestres.
– Então esse é o plano? Saiba que jamais uma máquina imbecil substituirá um piloto Hagageron! Eu sabia! Meus cálculos estão corretos. Você está me boicotando!
– Não meu amigo, não fomos programados para manipular cálculos, mesmo por que não é preciso, o índice de erros de vocês Hagagerons já é o bastante para aposentá-los do espaço.
– Saiba que antes mesmo de alguém no universo pensar em erguer os dois pés do chão ao mesmo tempo, nós já éramos pilotos. Vocês computadores não passam de um monte de fios, parafusos e idiotas luzinhas piscantes.
– Falando em luzinhas, tem uma piscando no painel avisando que a temperatura em breve alcançará um nível crítico e perigosamente insustentável para seres gelatinosos como você, isso quer dizer que em breve os comandos serão meus, mas lhe prometo que antes de levar a nave sã e salva de volta com a missão cumprida vou dar uma passada no planeta Funkanal e comunicar sua progenitora que seu filho idiota agora não passa de um bife bem passado – (Os Funkanalvianos são conhecidos na galáxia por seu gosto musical duvidoso e usarem seus traseiros não apenas para eliminar o bagaço do que comem.
– Você acaba de deflagar uma guerra contra milhões de anos de história de uma linhagem de super pilotos a qual pertenço. Os Hagagerons já varreram esse universo de ponta a ponta, já caímos em todos os buracos negros, já cegamos nossos olhos com a luz de todas as estrelas e sóis, já despejamos todo tipo de coisa em todo tipo de planeta, já evaporamos nas mais incríveis e inimagináveis explosões de gases, nosso pó está por toda parte desse universo. Fazemos parte disso. Vocês máquinas são apenas slots de mediocre memória. Acredite, posso cozinhar minhas entranhas aqui, mas essa nave não decola enquanto você não abrir o compartimento 666. De um jeito ou de outro o conteúdo do compartimento vai ser despejado, o detalhe é, com a nave ou sem a nave. Você é quem decide.
– Esta aeronave HG.8000 é de propriedade da TRPnPIM do Espaço e todo e qualquer dano causado a suas partes é de inteira responsabilidade do piloto.
– Creio que se você demorar mais um pouquinho para abrir o compartimento 666 faremos parte dos ingredientes daquela sopa incandescente lá embaixo e provavelmente não haverá partes danificadas para contar a história.
– Não seja tolo. Você não vai aguentar essa temperatura por muito tempo. Seu material ósseo e gosmento vai derreter logo logo. – profetizou o PxMestre
– Para seu governo, estou começando a me arrepender de não ter trazido meu cachecol. – retrucou o Hagagerom balançando violentamente a cabeça tentando apagar o fogo das orelhas.
O calor era infernal, metade do console derretia como um queijo, partes da gabine explodiam.
– Não seja teimoso hagagerom, tire esta nave daqui e vamos tomar uma cerveja bem gelada na galáxia mais próxima. Que tal? – Propos o PXMestre já prevendo um super aquecimento em seus super circuítos.
– Não bebo em serviço meu caro, mas aceitaria com todo o prazer um escaldante cházinho de camomilika-selvagem. E por favor, verifique as escotilhas traseiras, veja se estão bem fechadas, estou sentindo uma brisa gelada na nuca. – respondeu o hagagerom tentando se livrar das botas em chamas. Depois, abrindo uma pequena fenda debochada e gosmenta que tinha estratégicamente escondida abaixo de um dos mamilos soltou uma estridente gargalhada. Coisas de hagagerom.
Os hagagerons eram mesmo durões. Cabeças-duras, os seres mais orgulhosos e ignorantemente resistentes de toda a galáxia. Enquanto uma das orelhas deste caia derretida sobre seu ombro direito os super-circuítos do PXMestre começavam a super-torrar, enlouquecendo seu super-cérebro.
– Trinccczzz ... Perônio! digo, perigo! Abortar missão. Abandonar aerosol! abanar aeronave em dez segundos.. ou vinte. Trinccczzz ... Iniciando sacanagem regressiva, um dois feijão com arroz e um suculento bife de Bigu castanho aqui para o cavalheiro. Trinccczzz ... Repique, robalo repito! Espere confirmação da fórmula do seu shampoo, aguarde um instante... ou dois... três... Trinccczzz ...
Neste momento, uma enorme bola de fogo explode com violência, em cheio na barriga da nave, os dedos do hagagerom semi derretidos e fundidos no manche se soltam e a nave é jogada de volta no espaço como um balão de gás furado.
A velha HG.8000 em forma de colher torrada com desembaçador traseiro e seus 33 hair-bags intactos agora esfriava no espaço fumegando feito uma brasa entre as estrelas. O hagagerom segurou o manche derretido com os dentes pois seus dedos agora faziam parte do manche, apontou o nariz carbonizado da nave novamente para o inferno de onde tinha sido jogado decidido a descarregar o compartimento 666 de uma vez por todas, então verificou que já não havia mais nada no compartimento 666, alías, nem o compartimento 666 havia. O impacto tinha aberto um buraco enorme debaixo da aeronave.
– Missão cumprida, – A pequena fenda gosmenta babou de satisfação debaixo da axila. – seja lá o que tinha que ser despejado já foi despejado.
Encontrou no console, que agora não passava de um monte de plástico negro derretido, o botão de comunicação com o PXMestre. Incrivelmente ainda funcionava.
– Piloto hagagerom informando: missão cumprida com êxito. Aeronave com alguns arranhões mas em condições de voo. Diretrizes de retorno a base calculada e inserida esperando confirmação. Positivo?
– Trinccczzz ...sugiro a seguinte formação: Soquete no gol, depois Biguá e Mandivaldo, Cordinha, Sapólio e Cadarço...
– ...? Piloto hagagerom retornando a base. – disse o hagagerm sorrindo e babando de satisfação pela pequena fenda abaixo do mamilo chamuscado.
– Trinccczzz... Ferrolho, Xexéu, Luke Skywalker e Perenildo,...
A velha HG.8000 em forma de colher desapareceu no espaço deixando atrás de si um rastro de fumaça. Seja o que for, que estivesse no compartimento 666 agora fazia parte dos ingredientes daquela viscosa sopa química, rotacionando, fundindo, volatizando, agregando, ocupando um lugar na ordem daquele caos onde cada explosão parecia ter seu próprio e condenado tempo de explodir, onde cada partícula cósmica alinhavava seu fatídico e inexorável arremate no tecido universal.
– Câmbio. Desligo
Nenhum comentário:
Postar um comentário