sexta-feira, 9 de setembro de 2011

resPIRAÇÃO

Respirar é o Prana dos Hindus, o KI dos Japoneses e o chi dos Chineses. Para o Camargo passou a ser um pesadelo desde a noite em que acordou assustado com o Cid Moreira falando ao seu ouvido: “A partir desse exato momento, você tem exatamente, setecentas e trinta mil, duzentas e quarenta e duas respiradas para dar nessa vida, depois... babaus. Isso é incrííível”
Sentou na cama, levou a mão ao peito, o coração aos pulos. Ao seu lado, a Janete roncava feito um bi-motor. Como assim babaus?? Ainda sentia o bafo quente do Cid Moreira na orelha esquerda. Sacanagem, Cid Moreira as três da madrugada o alertando sobre o número de respiradas que ainda tinha para dar nessa vida e depois “babaus”.
Levantou e foi até a cozinha beber um copo dágua. Estava assustado, geralmente tinha o sono tranquilo, podia contar nos dedos os pesadelos que teve durante a vida toda.
– Que que houve homem de Deus?
Outro susto. Era a Janete parada na porta de cabelos espetados parecendo querer saltar da cabeça, pantufas do Scoobidu e camiseta do Brasil de Pelotas. Mais um susto desses e ele queimaria metade das respiradas que ainda lhe restavam só nessa noite.
– Nada Janete, vai dormir mulher. Foi só um pesadelo.
– Mas você está molhado de suor criatura!
– E respirando.
– Claro que tá respirando. Aliás, todo mundo que eu conheço e que respira, essa hora deve estar respirando e deixando os outros dormir.
– O Cid, disse que eu tenho só setecentas e algumas mil respiradas para dar e depois babaus.
– Que Cid?
– O Moreira. Acaba de me alertar o quanto ainda eu tenho para respirar nessa vida e babaus.
– Como assim, babaus?
– Morrer Janete! babaus nesse caso só pode ser morrer!
– Mas isso é fantástico!!
– Não brinca Janete. Eu realmente escutei alguém me dizendo o quanto ainda me sobrava de ar. E era o Cid Moreira.
– Você está assistindo muita tv criatura..... – disse a Janete – Respira fundo e vem dormir “Mr. M”
Camargo voltou para a cama. Tentou dormir mas a voz do Cid não lhe saía da cabeça. Quantas respiradas mesmo? Setecentas e alguma coisa?
– Janete?
– Que que é agora?
– Você já pensou que isso pode ser verdade?
– Que você é o Mr. M? Me “poulpe”. (A Janete tinha a mania de falar me “poulpe” em vez de me poupe. Quando namorados ele até achava engraçadinho mas agora aquilo lhe dava nos nervos)
– Não não, que a gente já nasce com direito a tantas respiradas, entende?
– Não.
– Como um automóvel
– Deixa de bobagem homem.
– Pode ser, por que não? Esse negócio do ar ser tão fundamental e de graça nunca me convenceu.
– Faz o seguinte: tranca a respiração e me deixa dormir tá ok?
Cid Moreira. Por que logo o Cid Moreira? Se ainda fosse a Ana Paula Padrão. – Não conseguia deixar de pensar. – Setecentas e quantas mil mesmo de respiradas ele disse? Suspiro conta? Bocejo? Que que vale, a quantidade de ar ou o movimento do diafragma? Por ano, quantas respiradas ele dava? por dia? por hora? minuto? Ajeitou o relógio no criado mudo para que pudesse enxergar a hora. Os números azuis fosforecentes marcavam 4:43, esperou marcar 4:44 minutos, prendeu o ar nos pulmões e começou a contar...4:45. Quatorze respiradas. Achou quatorze um número razoável considerando a sua idade e todas as variantes. Aarredondou para dez, uma hora tem 60 minutos multiplicado por 10... 600 respiradas, multiplicado por 24 horas dia ... Meu Deus que loucura! Precisava dormir. Às sete tinha que estar no escritório, reunião com o Pacheco às oito... 600 X 24 = 14.400... Se flagrou que nunca antes havia prestado atenção na sua respiração, simplesmente respirava, vivia respirando como todo mundo. Já não bastava estar vivo agora tinha que racionar respiradas? só lhe faltava essa, gas, luz, telefone agora as respiradas! Racionamento de ar. Só podia ser coisa desses americanos! eles não abrem mão de um peido e agora querem que eu racionalize o meu ar! E o Cid hem!? decorou a bíblia e não aprendeu nada? Isso é coisa que se faça? acordar um cristão no meio da noite com uma notícia dessas... Me “poulpe”, como diz a Janete. Ela tinha razão, era besteira se impressionar com isso. Um ano tem 365 dias, multiplicado por 14.400... se eu chegar atrasado amanhã o Pacheco vai me matar. Onde foi que eu guardei a calculadora mesmo?
1, 2, 3, 4... Começou a contar as respiradas que dava. 54, 55, 56... Mesmo querendo não conseguia parar de contar, enchia os pulmões de ar e quando soltava escutava um som de máquina registradora no cérebro, trimmc, trimmc. Achou melhor levantar. O dia estava mesmo amanhecendo lá fora e pelo jeito não conseguiria dormir mais e nem parar de contar. Muito menos parar de respirar. Foi para o chuveiro. Deixou a água bater com força bem em cima da cabeça. Ficou horas embaixo do chuveiro escutando o barulho da água. 125, 126, 127, 128, 129.... Depois, enquanto tomava café, percebeu que instintivamente trancava o ar nos pulmões.
Alguma coisa tinha mudado. Alguma coisa no seu cérebro ligada ao instinto de preservação, sei lá. Respirar nunca mais seria a mesma coisa. Parou de contar mas começou a respirar somente quando nescessário. Estritamente nescessário. Passou a falar pouco para economizar o ar.
– Hoje encontrei a Janira.
– Hum hum.
– Tá esperando outro bebê. Lembra dela?
– Hum...
– Para com isso Camargo! Respira e me responde!
– Uuuuuuuuufuuuu!! Que que tem essa tal de Janira? Você acha que a Janira merece uma respirada minha? Você acha que eu vou reduzir meus dias de vida por causa da Janira? Quando eu der a minha última respirada, que pode ser hoje ou amanhã ou daqui a um mês, sei lá, a Janira vai me fazer uma respiração boca a boca? Tu falou prá ela que o filho que ela está esperando tem direito a tantas respiradas e depois babaus! Tenha paciência Janete!!
– Para com isso homem! Pobre da criança!
Não respirar virou uma obsessão, um jogo de vida e de morte e isso estava acabando com os seus nervos. Televisão: trancava o ar quando dava os comerciais e só soltava quando começava o filme. Ônibus, sentava sempre na janela e respirava quadra sim quadra não. Quando ia de carro, sempre que parava em algum sinal trancava a respiração, só soltava o ar quando a luz verde acendia. No escritório era a mesma coisa: Só vou respirar quando o telefone tocar. Só respiro depois que chegar o fax. Só vou respirar quando o Pacheco terminar a reunião. Essa agora era a sua principal meta na vida, trancar o ar nos pulmões o máximo de tempo possível e soltar o ar bem devagarinho para que uma respirada tivesse a duração de duas, isso é: dobrar o tempo de vida ou quem sabe triplicar.
A Janete começou a se aborrecer com a sua dieta de ar. Sexo passou a ser um problema.
– Assim não há tesão que aguente Camargo! Só de meias até que vai mas com esse prendedor no nariz?! Me “poulpe”.
– Bor que Beu aborzinho?
Depois de uma reunião em que desmaiou três vezes o Pacheco o chamou na sala.
– Assim não dá Camargo, fazem dois meses que eu tento organizar o amigo secreto da empresa e você me faz esse fiasco, o Natal já está aí e ainda não decidimos quem vai ser o Papai Noel esse ano. A dona Rosa do cafezinho quer que seja você de qualquer jeito pois acha que você, mesmo com essa cara de rena asmática é o mais sensível de todos porque desmaia em todas as reuniões e nós sabemos que não é nada disso, a Janete me ligou contando sobre essa tua mania de não respirar.
– A Janete andou te ligando!?
– Aos prantos. Ela não aguenta mais essa tua paranoia, me pediu para conversar contigo. Onde já se viu Camargo, tentar viver e não respirar nesse planeta!? Os cara lá da Nasas estão gastando zilhões de dolares para descobrir um lugar no espaço que tenha oxigênio pra gente e você aí nessa vida? Outra coisa meu velho: Acreditar no Cid Moreira!? Me “poulpe”
– Ela também te disse isso é?
– Do Cid Moreira?
– Não, “me poulpe”?
– Não muda de assunto Camargo. Olha, acho melhor tu tirar umas férias, isso é estress, dos brabos. Vai fazer uma viagem, trocar de ares vai te fazer bem.
Trocar de ares era tudo o que o Camargo não queria mas achou boa a ideia, tinha descoberto na internet um personal-yogue indiano chamado Layanandha que conseguia ficar dez minutos sem respirar deitado em cima de duzentas facas Gunzi, ele dispensaria as facas, não precisava de patrocínio, empregaria todo o dinheiro das férias e faria um intensivo com o indiano.
– Me “poulpe” Camargo!! – Quando a Janete ficou sabendo dos seus planos de férias ficou uma fera. – A gente não ia alugar uma casa em Cidreira esse ano Camargo? Tu enloqueceu de vez, gastar o dinheiro das férias com esse “nhoque” da índia!
A Janete que já andava disposta a lhe ajudar a respirar menos, ou seja, lhe esguelar, tinha chegado no limite, pegou as malas e foi morar com a mãe em Lajeado. A sogra tinha 97 anos. E ainda respirava.
Quando a Janete passou a mão nas malas e bateu a porta, Camargo encheu os pulmões de ar e soltou com toda a força, achou que aquele momento lhe valia umas horas a menos na vida. Estava sozinho, podia não respirar o ar que quisesse na hora que bem entendesse. Foi correndo para o computador passar um e-mail para o Layanandha. Começaria o curso e os exercícios imediatamente.
No e-mail não poupou palavras para impressionar o indiano, precisava sensibilizar o yogue, precisava fazer com que ele compreendesse a urgência do seu caso. Foi sincero, não estava interessado na "grande respiração psíquica" muito menos em ser garoto propaganda de faca nenhuma. Contou do sonho, só achou melhor trocar o Cid Moreira pelo Dalai Lama. Contou ainda que já tinha perdido a mulher, a chance de ser o Papai Noel da empresa e provavelmente acabaria perdendo o emprego e que já não conseguia mais telefonar para a mãe porque ela tinha asma e aquilo lhe dava nos nervos, um sentimento esquisito que ele começava a desconfiar que era inveja. Deu um enter, trancou o ar nos pulmões e ficou ali mesmo, em frente ao computador, esperando a resposta. Não demorou muito:
“Essa voz que você ouviu, você tem certeza de que era do Dalai Lama?”
Meu deus, e agora!? O cara era poderoso mesmo! desconfiou que ele estava mentindo via e-mail! Respondeu:
“Nessa existência a única certeza que temos é de que não temos certeza de nada”. – Tinha lido isso num desses power points bregas que recebia sempre de um cunhado (agora um ex-cunhado, graças a Deus). Achou que ia funcionar. Resposta:
“Combinado, começamos amanhã. Estarei aí as 8:00hs com certeza. (Ou não)”.
Camargo ficou em dúvida quanto ao horário mas achou melhor não perguntar nada.
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– Camargo?
– ...Mestre Layanandha?
Era o próprio. Ou melhor, a própria.
Camargo não conseguia esconder a surpresa, afinal, esperava algo mais... digamos, típico: um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. Na sua frente, parada na porta, uma deusa que parecia ter vindo direto da passarela do “Índia Fashion Week”
– Devo avisar que tanto faz, dentro de casa ou do lado de fora da porta o preço é o mesmo. – disse ela sorrindo.
– Ah! Desculpe. Entre por favor, é que eu...
– Esperava um sujeito desses raquíticos com uma enorme barba fedorenta e enrolado num lençol. – completou ela.
– É, mais ou menos. – Disse afastando as almofadas de cima do sofá.
– Fique à vontade deusa. Digo, mestre, mestra...
– Pode me chamar de Laia.
– Chá? – perguntou o Camargo.
– Que horas são?
– Agora é 8:15...
– Wisk. Uma pedrinha de gelo. Redonda.
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Meia hora depois os dois estavam na cama. Assim como uma hora depois e ainda quatro horas mais tarde.
Devo ter comprometido uns cinco anos de vida. – pensou Camargo ainda ofegante olhando o belo corpo nu da indiana que dormia ao seu lado – Então é isso que esses yogues malucos chamam de respiração psíquica? Lembrou de um provérbio hindu que tinha lido na internet: "Bem-aventurado o Yogue que respirar através dos seus ossos". Os ossos dele não só não conseguiam respirar como estavam muídos. Aquela mulher era uma máquina. Tentou levantar para ir ao banheiro tomar um banho conferir no espelho o que ainda restara do corpo mas foi seguro pela “máquina insaciável”.
Quando a noite chegou, Laia ainda mordia seu cotovelo enquanto ele tentava saber por onde andava sua perna esquerda no meio de uma posição que ela chamou de “o pulo do Elefante iluminado”. Quando ela se preparava para lhe mostrar outra, chamada “incendiando o porquinho-da-índia” ele perguntou se essa posição carecia ocupar a boca e o estômago porque ele estava com uma fome de tigre. Ela achou melhor ir até a cozinha preparar alguma coisa para os dois antes de começar a tostar o porquinho.
Camargo mexeu só com o que podia mexer no momento, a pálpebra do olho esquerdo, e ficou olhando ela atravessar o quarto, já nem lembrava mais de como ela era linda também na vertical.
Depois das torradas e do suco de laranja ela deitou a cabeça no peito dele e ficou escutando sua respiração, perguntou o que ele tinha achado de ter respirado naquele dia o ar que ele provavelmente levaria três ou quatro dias da vidinha que ele levava. Ele sem tirar os olhos do teto, deu um sorriso, respirou fundo e babaus.

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