Meu amigo Rob Makeena acredita fielmente que os ratos não morrem, eles simplesmente vão envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo, até se transformarem em morcegos. Me disse isso numa tarde mormacenta de um janeiro em fogo. Estávamos sentados cada um num barril de óleo em frente a lancheria do posto de gasolina derrubando uma caixa de cervejas quentes que ele trouxera de Amsterdam. Havia cruzado a Holanda com seu dinossauro vermelho aos berros, – Merda! – Ele disse batendo com os calcanhares no barril – Toda chuva que tinha pra cair nos próximos dois anos naquela terra caiu de uma só vez sobre minha cabeça. Eu devia ter desconfiado, um lugar com tantos moinhos só podia dar nisso – Agora estávamos ali, suando sobre os barris de óleo olhando sem interesse a estrada que parecia derreter e escutando a Morriset gemer doce e profundamente no rádio. Um rato gordo e cabeludo atravessou o asfalto aos pulos como se atravessasse uma frigideira de azeite quente, foi quando Rob Makenna perguntou se eu sabia que os ratos não morrem, sinplesmente viram morcegos quando ficam velhos. Putsgrila! e eu sei lá o que acontece com os ratos! eu estava na quinta cerveja holandesa e já era Van Ghog fumando cachimbo e desenhando no ar com pincéis de fumaça angustiados girassóis! Ao meu lado era Gauguin que falava das grandes orelhas de Mette, sua ex-mulher e dos pêlos macios que uma taitiana carregava entre as pernas. – É sério meu camarada! – ele afirmava entusiasmado – Nós envelhecemos e vamos perdendo os dentes pelo caminho, os ratos não, eles criam asas e vão dormir pendurados por ai, oxigenando sem parar seus pequenos cérebros para se convencerem de que já não são mais ratos e sim chupadores de sangue de camponesas brancas e virgens – Eu sentia minha orelha sangrando e tive raiva e me deu vontade de protestar contra aquela história idiota e convencê-lo por “a” mais “b” mais “c” e mais uma série de Deuses que não era nada daquilo que ele acreditou a vida toda, ratos são ratos, morcegos são morcegos e acabou. Mas fiquei pensando: se com meus argumentos idiotas eu conseguisse quebrar sua crença ingênua e absurda sobre essa história nada natural o que mudaria na sua vida e na rota maldita desse planeta? Nada. E o que eu teria para lhe dar em troca? Nada. Continuei desfiando os buracos das minhas calças jeans fingindo surpresa e alegria. – Um brinde aos ratos. – levantei no ar a garrafa esverdeada de cerveja e vi o sol atravessando o vidro revelando pequenos peixinhos dourados nadando em círculos no fundo.
Depois falamos sobre futebol, bife com cebolas e sobre belas mulheres passeando em nossas vidas com seus cabelos roxos. Um fusquinha desceu a estrada carregando um casal de velhos carrancudos e um cachorrinho muito feio abanando as orelhas na janela e eu fiquei pensando como seria divertido se os cães depois de velhos se transformassem em coelhos e os coelhos em ratos e os ratos em morcegos e os morcegos em qualquer outro bicho e nesse embalo a vida fosse se fazendo, e nós, humanos saindo uns de dentro dos outros vivendo apenas nossa curta vidinha de merda e murchando aos poucos dentro de fusquinhas barulhentos.
– Você sabia que os fusquinhas depois de velhos se transformam em tampinhas de garrafas de cerveja? – perguntei abrindo mais uma holandesa quente. Rimos muito até que uma chuva rala começou a cair sobre nossas almas brancas e bêbadas.
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